Quando a mente adoece em silêncio: um ensaio sobre a urgência de investir em saúde mental
Durante as últimas duas décadas, a sociedade brasileira viveu uma transformação significativa no modo como compreende e cuida da saúde bucal. Campanhas educativas, políticas públicas, programas escolares e uma forte presença da odontologia na mídia consolidaram a ideia de que dentes saudáveis são parte essencial da vida moderna. Hoje, é quase impensável que uma criança cresça sem visitar regularmente o dentista. A prevenção se tornou hábito, e o cuidado bucal, um marcador de responsabilidade familiar.
Mas, enquanto aprendíamos a usar fio dental, a marcar consultas semestrais e a corrigir desalinhamentos com aparelhos ortodônticos cada vez mais sofisticados, outra dimensão igualmente fundamental da saúde humana permaneceu à margem: a saúde mental.
A discrepância entre esses dois universos- o da boca e o da mente - revela muito sobre nossas prioridades culturais e sobre o tipo de sociedade que estamos formando.
Imagine uma sala de aula de adolescentes de quinze anos, em uma escola de classe média. Se perguntarmos quantos deles já foram ao dentista, a resposta será praticamente unânime. Muitos terão histórias de aparelhos fixos, consultas de rotina, limpezas periódicas e até clareamentos. A saúde bucal, para esses jovens, é parte natural da vida, algo que seus pais sempre consideraram importante, algo que a escola reforça, algo que a sociedade legitima.
Agora, troque a pergunta: quantos já foram ao psicólogo?
O silêncio que se instala é revelador. Alguns poucos levantarão a mão, muitas vezes com certo constrangimento. Outros dirão que nunca foram, que seus pais nunca sugeriram, que “não havia motivo”. E muitos sequer saberão explicar por que a ideia de ir ao psicólogo parece tão distante, tão carregada de preconceitos, tão diferente da naturalidade com que falam sobre o dentista.
Essa assimetria não é fruto do acaso. Ela nasce de décadas de negligência, tabu e desinformação sobre o que significa cuidar da mente.
Apesar dos avanços recentes, ainda existe um preconceito profundo quando o assunto é saúde mental. Ele se manifesta de formas sutis e explícitas. Essas crenças formam um conjunto de barreiras silenciosas que ainda afastam muitas pessoas do cuidado psicológico. A primeira delas é a visão equivocada de que buscar ajuda profissional seria um sinal de fragilidade, como se admitir sofrimento diminuísse o valor ou a força de alguém. A isso se soma a ideia persistente de que “problemas emocionais” podem ser resolvidos apenas com força de vontade, como se sentimentos fossem interruptores internos que bastasse acionar. Há também o medo de que um diagnóstico psicológico funcione como um rótulo permanente, capaz de estigmatizar e limitar, quando na verdade ele é apenas uma ferramenta para orientar o cuidado. Outro obstáculo é a suposição de que adolescentes não têm motivos reais para sofrer, como se a juventude fosse automaticamente sinônimo de leveza e imunidade emocional. Por fim, permanece a fantasia de que saúde mental é um luxo, algo acessório, e não uma necessidade tão básica quanto qualquer outro aspecto da saúde. Esses preconceitos, somados, criam um ambiente em que o sofrimento é silenciado e o cuidado emocional, adiado.
Essas narrativas, repetidas ao longo de gerações, criaram um ambiente em que o sofrimento psíquico é escondido, minimizado ou tratado como capricho. Enquanto isso, a saúde bucal que também exige cuidado, prevenção e investimento foi elevada ao status de prioridade indiscutível.
O resultado é um paradoxo cruel: jovens com sorrisos impecáveis, mas mentes exaustas.
Nunca tivemos tantos adolescentes e jovens adultos com dentes alinhados, sem cáries, com acesso a tratamentos estéticos e preventivos. E, ao mesmo tempo, nunca tivemos tantos jovens ansiosos, deprimidos, esgotados, incapazes de lidar com pressões que se acumulam desde cedo.
A sociedade celebra o sorriso perfeito, mas ignora o choro silencioso. Aplaude o autocuidado estético, mas desvaloriza o autocuidado emocional. Investe em clareamentos, mas não em clareza emocional. Compra escovas elétricas, mas não conversa sobre sentimentos.
Essa contradição não é apenas simbólica, ela tem consequências reais. A negligência com a saúde mental se traduz em sofrimento, queda de desempenho escolar, isolamento, conflitos familiares, automedicação, adoecimento psíquico e, em casos extremos, comportamentos de risco.
E tudo isso poderia ser mitigado se tratássemos a mente com a mesma seriedade com que tratamos os dentes.
Por que investimos tanto em dentes e tão pouco em emoções?
A resposta passa por fatores culturais, históricos e econômicos.
A saúde bucal se tornou um símbolo de status, higiene e cuidado pessoal. Ela é visível, mensurável, socialmente valorizada. Um sorriso bonito abre portas, gera elogios, reforça autoestima. A odontologia, por sua vez, construiu uma presença sólida na mídia, nas escolas e nas políticas públicas.
Já a saúde mental é invisível. Não aparece em fotografias. Não rende elogios imediatos. Não tem campanhas tão massivas. E, por muito tempo, foi associada à loucura, descontrole, incapacidade - estigmas que afastaram famílias inteiras da possibilidade de buscar ajuda.
Além disso, existe uma dificuldade coletiva em lidar com emoções. Falar sobre sentimentos exige vulnerabilidade, e vulnerabilidade ainda é vista como fraqueza. Por isso, muitos pais preferem acreditar que seus filhos “estão bem”, mesmo quando sinais de sofrimento são evidentes.
O papel dos pais: entre o cuidado que se vê e o cuidado que se sente
Pais que levam seus filhos ao dentista regularmente não o fazem por vaidade, fazem porque aprenderam que prevenção é fundamental. Sabem que negligenciar a saúde bucal pode gerar dor, infecções, problemas estéticos e custos altos no futuro.
Mas quando o assunto é saúde mental, muitos pais ainda esperam que os filhos “superem sozinhos”, “amadureçam”, “se acostumem”, “parem de frescura”. Essa postura, embora comum, é perigosa. Ela ignora que sofrimento emocional também se agrava com o tempo, também causa dor, também compromete o futuro e também exige prevenção.
Cuidar da mente não é sinal de fraqueza; é sinal de maturidade. E ensinar isso aos filhos é uma das maiores responsabilidades de qualquer família.
Se há vinte anos a saúde bucal era negligenciada e hoje é prioridade, isso aconteceu porque a sociedade evoluiu. Aprendemos, coletivamente, que prevenção é melhor do que tratamento, que informação salva, que cuidado é investimento.
Agora, precisamos fazer o mesmo com a saúde mental.
Precisamos de campanhas, de conversas abertas, de escolas preparadas, de profissionais acessíveis, de famílias que escutam, de pais que entendem que emoções também precisam de acompanhamento. Precisamos normalizar o psicólogo da mesma forma que normalizamos o dentista.
A evolução de uma sociedade não se mede apenas pelo brilho dos sorrisos, mas pela saúde emocional de seus jovens.
Pais, mães, responsáveis: a saúde mental dos seus filhos é tão importante quanto a saúde bucal. Talvez até mais porque dela depende a capacidade de aprender, de se relacionar, de enfrentar desafios, de construir autonomia e de viver com bem-estar.
Cuidar da mente não é modismo, não é luxo, não é exagero. É parte da evolução da sociedade. É um compromisso com o futuro. É a garantia de que os jovens de hoje, tão bem tratados nos dentes, também possam ser bem tratados na alma.
Se conseguimos transformar a cultura da saúde bucal em apenas duas décadas, também podemos transformar a cultura da saúde mental. Basta começar pelo óbvio: reconhecer que a mente merece o mesmo cuidado, a mesma atenção e o mesmo investimento.
Porque um sorriso perfeito não significa nada se por trás dele houver sofrimento silencioso.
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