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Influenciados Pelo Instagram, Frustrados Pela Realidade

Viajar é uma das melhores coisas da vida. E é mesmo - para quem tem bom humor suficiente para isso. Porque, convenhamos, viajar exige uma dose generosa de flexibilidade emocional, aquela capacidade de rir do próprio tropeço, de abraçar o imprevisto, de aceitar que o mundo não foi construído para atender às nossas vontades individuais. Entretanto, algumas pessoas insistem em embarcar sem esse item básico na mala. Aí, claro, dá ruim.

Tem o sujeito que escolhe o destino da moda - aquele que está bombando no Instagram, com fotos de gente sorrindo em ângulos impossíveis, luz perfeita e zero fila - e acredita piamente que sua experiência será igual. A pessoa não pesquisa, não se pergunta se combina com o próprio estilo, não avalia se gosta de frio, calor, altitude, trilha, multidão, silêncio, museu, neve, montanha, mar ou qualquer outra variável mínima. Ela simplesmente vai. E quando chega lá, descobre que a vida real não tem filtro do Instagram.

É aí que começa o espetáculo.

A criatura passa três dias numa estação de esqui reclamando que “tudo é muito branco”, que “a bota pesa”, que “a neve é fria” - como se houvesse alguma chance de a neve ser morna. Ou então se mete numa viagem de trilhas pela natureza e volta indignada porque havia… natureza. Insetos, barro, vento, sol, sombra, silêncio. “Um absurdo”, ela diz, como se a floresta tivesse obrigação de se comportar como um shopping climatizado.

E o melhor - ou pior - é que essas pessoas raramente se responsabilizam pela própria escolha. Não. Elas culpam o destino, a agência, o blogueiro que indicou o roteiro, o amigo que já foi e “não explicou direito”, o marido, o motorista do transfer, o clima, o planeta, o alinhamento dos astros. E, para completar, ainda saem por aí evacuando regras universais, como se a opinião delas fosse um decreto irrevogável: “Esse lugar é ruim”, “Esse destino não vale a pena”, “Ninguém deveria ir”. Tudo isso porque elas não gostaram. É quase poético se não fosse tragicômico.

A verdade é que não existe viagem boa ou ruim. Existe viagem que combina com você e viagem que não combina. Simples assim. Há quem ache enfadonho visitar museus. Eu, no caso, amo. Posso passar horas olhando para quadros, esculturas, objetos antigos, lendo plaquinhas que ninguém mais lê, mas eu não saio por aí descendo goela abaixo dos outros que se pisou em Paris tem que ir ao D´Orsay. Há pessoas que entram num museu e começam a bocejar antes mesmo de passar pela bilheteria. E está tudo bem, quer dizer, eu não sou capaz de entender, mas não julgo. O problema não é o museu. O problema é a expectativa errada. Se você não descobrir o que te motiva e o que te encanta, todas as viagens serão cansativas e frustrantes porque viajar só para postar uma foto e dizer que foi não te faz feliz – pode até te iludir por uns dias, mas o que te faz feliz é realizar um sonho seu, veja, eu disse seu e não do outro.

Isso vale para parques temáticos. Tem quem critique as longas filas, o barulho, o excesso de estímulos, o preço da pipoca. Enquanto isso, outros - e aqui eu me incluo com gosto - se deixam levar pela magia das atrações, voltam quantas vezes conseguem, tiram foto com personagens, choram na parada noturna e saem de lá com o coração quentinho. Não existe certo ou errado. Existe afinidade. Existe vontade de viver.

Ser um viajante de verdade não tem nada a ver com carimbar passaporte ou colecionar destinos da moda. Tem a ver com autoconhecimento. Com honestidade. Com a coragem

de admitir que você não gosta de frio, ou de calor, ou de trilha, ou de museu, ou de multidão e tudo bem. Tem a ver com escolher lugares que conversam com o seu jeito de ser, e não com o algoritmo. Tem a ver com entender que imprevistos acontecem, que o voo atrasa, que o restaurante fecha, que a chuva cai, que o mapa erra, que o hotel não é tão fotogênico quanto parecia. E, ainda assim, manter o bom humor.

Porque viajar é, acima de tudo, um exercício de humildade. É aceitar que o mundo não gira ao nosso redor. É aprender a rir quando a mala não chega (mesmo que seja um riso de desespero), quando o prato vem errado, quando o ônibus passa direto. É perceber que, no fim das contas, a experiência é moldada muito mais pelo nosso estado de espírito do que pelo destino em si.

Então, antes de comprar a próxima passagem, vale a reflexão: você quer mesmo ir para esse lugar ou quer a foto? Você gosta desse tipo de viagem ou gosta da ideia de dizer que fez? Você está disposto a abraçar o imprevisto ou vai passar a viagem inteira reclamando que o mundo não correspondeu às suas expectativas?

Viajar é maravilhoso. Mas só para quem leva, além do passaporte, uma boa dose de leveza. E, claro, um pouco de responsabilidade emocional. Porque destino nenhum merece carregar a culpa pelo mau humor alheio.

E, no fim, é simples: não existe viagem perfeita. Existe a viagem perfeita para você.

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