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Os 5 Ms da Geriatria: um novo olhar sobre o envelhecimento

Queridos leitores, ao longo da minha prática médica, especialmente no cuidado com pessoas idosas, aprendi que envelhecer bem não significa apenas viver mais anos. Significa manter autonomia, dignidade, lucidez e qualidade de vida. A geriatria moderna tem caminhado exatamente nessa direção e um dos modelos mais claros e humanos para entender esse processo é o chamado modelo dos 5 Ms da Geriatria.

Mais do que uma lista técnica, os 5 Ms são um guia prático para cuidar melhor da pessoa idosa, olhando o indivíduo como um todo e não apenas suas doenças. Guardem esses artigos e pratiquem, pois serão a chave para o sucesso de seu envelhecimento.

1. Mente

A mente é muito mais do que memória. Ela envolve atenção, linguagem, raciocínio, comportamento, humor e identidade.

É comum associarmos o envelhecimento apenas à perda de memória, mas nem todo esquecimento é demência. Muitas vezes, alterações cognitivas estão relacionadas à depressão, ansiedade, distúrbios do sono, desidratação ou uso inadequado de medicamentos.

Cuidar da mente é reconhecer precocemente sinais de alerta, estimular o cérebro, preservar o convívio social e tratar doenças como o Alzheimer com seriedade, informação e acompanhamento adequado. Cuidar da mente é preservar a história de vida daquela pessoa.

2. Mobilidade

Mobilidade é independência. É a capacidade de levantar da cama, caminhar, tomar banho sozinho, sair de casa.

Quando a mobilidade se perde, o idoso não perde apenas força muscular perde liberdade, autoestima e, muitas vezes, saúde mental.

Quedas, sarcopenia (perda de massa muscular), sedentarismo e medo de se movimentar formam um ciclo perigoso. A boa notícia é que atividade física orientada traz benefícios em qualquer idade, melhorando equilíbrio, cognição, humor e até resposta aos tratamentos.

Um corpo parado envelhece mais rápido. Movimento é prevenção.

3. Medicações

O uso excessivo de medicamentos, a chamada polifarmácia, é uma das grandes causas de confusão mental, tontura, quedas e internações em idosos.

Nem sempre mais remédios significam mais cuidado. Muitas vezes, significam mais risco.

Todo medicamento precisa de indicação clara, dose adequada, acompanhamento e, principalmente, revisão periódica. Remédios que foram úteis em um momento da vida podem deixar de ser necessários ou até se tornar prejudiciais com o passar dos anos.

Na geriatria, revisar medicações é tão importante quanto prescrevê-las.

4. Multimorbidades

É comum que a pessoa idosa conviva com mais de uma doença crônica: hipertensão, diabetes, artrose, doenças cardíacas, entre outras. O problema não é ter várias doenças. O problema é tratá-las de forma fragmentada.

Quando cada doença é vista isoladamente, o paciente se perde no meio de exames, receitas e orientações conflitantes. O cuidado geriátrico busca integrar tudo isso, com foco não apenas nos exames, mas na funcionalidade e no bem-estar global.

Mais importante do que “normalizar números” é preservar a qualidade de vida.

5. Mais importante (What Matters)

Talvez o “M” mais importante de todos.

O que realmente importa para essa pessoa? Quais são seus valores, seus desejos, seus limites, suas prioridades?

Alguns idosos querem viver mais a qualquer custo. Outros querem viver melhor, com menos intervenções e mais conforto. Ouvir, respeitar e envolver o paciente nas decisões é essencial. A medicina que escuta é a medicina que cuida melhor.

Os 5 Ms da Geriatria nos lembram que envelhecer não é sinônimo de adoecer. É uma fase da vida que exige olhar atento, escuta qualificada e cuidado integrado.

Nas próximas semanas, vou aprofundar cada um desses pilares individualmente, mostrando como pequenas atitudes podem fazer grande diferença na saúde e na qualidade de vida ao envelhecer. Porque viver mais só vale a pena se for viver melhor. Tenham todos uma boa semana.

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