Quando o Amor se Confunde e a Casa se Torna um Labirinto
Há histórias que não começam com
grandes rupturas, mas com pequenas distorções afetivas que se acumulam ao longo
dos anos. Histórias de meninas que crescem em casas onde o amor existe, mas não
protege; onde a presença é intensa demais de um lado e ausente demais do outro;
onde a adolescente aprende cedo que, para sobreviver, precisará se encolher, se
calar ou se endurecer. Entre essas histórias, uma das mais silenciosamente
devastadoras é a da filha que cresce entre a mãe que invade e o pai que
desaparece. Uma mãe que controla, compete, desvaloriza e centraliza tudo nela;
um pai que observa, mas não age; que percebe, mas não sustenta; que prefere
evitar conflitos a defender a própria filha. E no meio disso, uma adolescente
que tenta existir, mas não encontra espaço, nem espelho, nem amparo.
A mãe narcisista, como descreve
Heinz Kohut em sua teoria do self, não reconhece o outro como sujeito, mas como
extensão narcísica. A filha deixa de ser filha e passa a ser objeto: de
orgulho, de comparação, de projeção, de controle. Essa mãe invade escolhas,
roupas, amizades, sentimentos. Alterna entre carinho e humilhação, confundindo
a jovem que nunca sabe qual versão encontrará ao abrir a porta do quarto. Compete
com a própria filha pela aparência, pela atenção, pela liberdade. Usa a culpa
como ferramenta, a crítica como linguagem e a invasão como rotina. A
adolescente vive em alerta constante, em um estado que Judith Herman descreve
como hipervigilância emocional:
o corpo aprende a antecipar o perigo, mesmo quando o perigo é apenas um tom de voz.
Do outro lado, o pai omisso. Ele
vê, mas não intervém. Sabe, mas não sustenta. Está ali, mas não está. Minimiza
o sofrimento da filha com frases que parecem neutras, mas ferem profundamente.
Donald Winnicott, ao falar da função paterna como terceiro estruturante,
explica que a presença de um cuidador que delimita, protege e oferece contorno
emocional é essencial para que a criança se diferencie da mãe e desenvolva um senso
de self coeso. Quando esse pai falha, a adolescente fica sem escudo, sem
referência, sem validação. A omissão dele não é ausência neutra; é abandono
emocional silencioso. E esse abandono ensina algo devastador: se nem meu pai me
protege, então eu realmente estou sozinha.
A adolescente cresce, então, em
um ambiente onde expressar sentimentos gera crítica, se impor gera culpa e
precisar de apoio gera rejeição. Ela aprende a se calar para não ser
ridicularizada, ou a gritar para não desaparecer. Aprende a se anular para
manter a paz, ou a reagir de forma explosiva para tentar recuperar algum senso
de existência. A baixa autoestima se instala como sombra. O medo de errar vira
hábito. A dificuldade de confiar se torna armadura. A raiva reprimida se acumula,
às vezes silenciosa, às vezes transbordando. A sensação de não ser vista nem
protegida se torna marca. E, como consequência, ela busca validação fora de
casa, muitas vezes em relações que repetem a mesma dor.
Na vida adulta, essa menina
transformada em mulher carrega cicatrizes que não aparecem, mas pesam. A teoria
do apego, desenvolvida por John Bowlby e aprofundada por Mary Ainsworth,
explica que padrões relacionais internalizados na infância tendem a se repetir
na vida adulta, especialmente quando não há intervenção terapêutica. Assim, sem
tratamento, ela tende a atrair parceiros controladores, repetindo a mãe; ou
parceiros ausentes, repetindo o pai; ou afastar homens saudáveis, porque o
saudável lhe parece estranho, quase ameaçador. Como dizia Bowlby, “o que é
familiar tende a parecer seguro, mesmo quando é doloroso”. Ela vive entre a
culpa de se impor e a raiva de se anular. Carrega um vazio emocional difícil de
explicar, como se faltasse algo que ela nunca recebeu, mas sempre buscou.
Continua tentando receber do mundo o acolhimento que faltou em casa, como se
ainda fosse aquela adolescente esperando que alguém finalmente a enxergasse.
Mas o foco não é culpar os pais.
O foco é libertar essa filha do lugar de abandono emocional. No processo
terapêutico, trabalhamos a dor de não ter sido protegida pelo pai, o peso de
ter sido controlada ou anulada pela mãe, a culpa por se afastar dessas
dinâmicas, o fortalecimento da identidade, a construção de limites saudáveis, a
quebra dos padrões que se repetem sem que ela perceba. A psicoterapia,
especialmente em abordagens baseadas no apego, na teoria do self e na
psicodinâmica contemporânea, oferece um espaço de reparação emocional onde a
paciente pode, pela primeira vez, experimentar um vínculo seguro, consistente e
validante. Quando essa mulher entende que não era responsabilidade dela
sustentar a mãe, nem aceitar a omissão do pai, algo dentro dela se reorganiza.
Ela começa a viver com mais força, mais clareza, mais autonomia. Deixa de ser a
adolescente que sobreviveu e passa a ser a mulher que escolhe.
E talvez esse seja o ponto mais
bonito de toda essa jornada: perceber que, mesmo tendo crescido sozinha dentro
de casa, ela não precisa continuar sozinha dentro de si. A cura não apaga o
passado, mas devolve o futuro. E, quando isso acontece, a casa interna - aquela
que ela constrói dentro de si - finalmente deixa de ser um labirinto. E o
coração, que antes só sussurrava, aprende a falar com voz inteira.
PS: este texto é uma homenagem a três pacientes a quem a vida meu deu a honra de atender e que reescreveram suas histórias através da psicoterapia.
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