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As histórias que nos escolhem

Há livros que não terminam quando fechamos a última página. Permanecem como um cheiro que se entranha na roupa, como uma memória que não sabemos se é nossa ou herdada, como uma voz que continua falando mesmo quando já não há ninguém na sala. Torto Arado foi assim para mim. Li há cinco anos - talvez um pouco mais - e ainda hoje sinto que ele me observa de algum lugar, como uma dessas presenças silenciosas que habitam as casas antigas e que não pedem licença para existir.

Ontem, ao ouvir meu filho dizer que está lendo o mesmo livro, experimentei um leve deslocamento, como se o tempo tivesse se dobrado sobre si mesmo e me convidado a revisitar algo guardado numa gaveta alta, dessas que só abrimos quando precisamos encontrar uma peça esquecida. Há uma ternura estranha em ver um filho tocar uma história que nos tocou. Por um instante, as fronteiras entre as gerações parecem se desfazer, revelando um fio contínuo que atravessa o tempo e costura vidas diferentes com marcas semelhantes.

Talvez seja justamente isso que mais me comove na literatura: a revelação de que não somos tão inéditos quanto imaginamos. Repetimos gestos, medos, silêncios. Herdamos não apenas traços físicos, mas também narrativas interrompidas, dores não ditas, pactos que jamais assinamos e, ainda assim, cumprimos como se fizessem parte de um contrato invisível. A psicologia chama isso de lealdades invisíveis. Eu prefiro chamar de raízes.

E poucas histórias exploram essas raízes com tanta força quanto este romance, aquelas que prendem e sustentam, que alimentam e sufocam, que se aprofundam tanto na terra que já não sabemos onde terminam as nossas escolhas e começam as escolhas de quem veio antes. Ao pensar nas irmãs Bibiana e Belonísia, penso também nas mulheres que encontrei ao longo da vida: mulheres que carregavam na postura, no olhar, no modo de falar, uma história que não era apenas delas. Histórias de silenciamento, de resistência, de sobrevivência. Histórias transmitidas como um ritual antigo, de mãe para filha, de avó para neta, não por palavras, mas por gestos.

Existem famílias que se comunicam precisamente assim: pelo que não dizem. Quando o silêncio atravessa gerações, deixa de ser ausência de som e passa a ser linguagem, um modo de comportamento, um modo de existir. Talvez por isso o livro tenha me atravessado tanto. Ele fala de vozes arrancadas que continuam ecoando, de corpos feridos que seguem caminhando, de uma terra que guarda mais do que planta: guarda segredos, pactos, fantasmas.

Ao saber que meu filho está lendo essa história, percebi que ela também passou a fazer parte da nossa própria terra interna, esse território íntimo onde guardamos aquilo que nos transforma. Há algo de profundamente psicológico nesse movimento de transmissão. Não escolhemos o que nos marca, nem o que se aloja em nós como uma segunda pele. Mas escolhemos o que fazemos com isso: repetir ou romper, seguir o caminho traçado ou abrir uma trilha nova, ainda que estreita e incerta.

É nesse ponto que literatura e psicologia se encontram. Ambas nos convidam a olhar para dentro, para esse território onde convivem nossas raízes e nossos desejos de voo. O romance fala de mutilações, mas também de cura; de servidão, mas também de liberdade; de um passado que insiste em permanecer, mas também de um futuro que só nasce quando alguém decide interromper o ciclo.

Ao imaginar o que meu filho encontrará nessas páginas, lembro do que encontrei quando li: a consciência de que somos feitos de camadas, de histórias que não começamos, vozes que não ouvimos, pactos que não assinamos. Mas também somos feitos da possibilidade de interromper, de reescrever, de devolver ao mundo uma versão mais leve de nós mesmos.

Há algo que não sei nomear agora nessa percepção, nesse olhar que contempla a vida com certa distância, como quem observa uma paisagem coberta de neve e sabe que, sob a superfície branca e silenciosa, há raízes vivas insistindo em crescer. A literatura brasileira, tão quente e terrosa, marcada por sol e suor, encontra nesse contraste um espaço de reflexão que me agrada: a possibilidade de olhar para nossas dores com a frieza necessária para compreendê-las, sem perder a ternura que permite transformá-las.

É isso que desejo ao ver o livro nas mãos dele: que cada geração recebe uma história, mas não está condenada a repeti-la. Podemos honrar nossos ancestrais sem carregar seus pesos, amar nossa origem sem nos aprisionarmos nela, reconhecer que há silêncios que não nos pertencem e que não precisamos perpetuar.

Quando uma história atravessa duas gerações, deixa de ser apenas um livro e se torna um espelho, não apenas do que somos, mas também do que podemos deixar de ser. A literatura revela o que estava escondido; a psicologia nos oferece a liberdade de escolher o que fazer com essa revelação.

Alguns livros permanecem como sombras silenciosas. Voltam quando menos esperamos, trazidos pelas mãos de um filho que, sem saber, nos devolve a nós mesmos. Torto Arado é um desses livros. Ao vê-lo agora nas mãos do Arthur, senti algo em mim se reorganizar, como se uma peça antiga finalmente encontrasse seu lugar. A literatura faz isso. A vida também.

 

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