As Mãos Sujas da Omissão
Há notícias que atravessam o dia como um ruído distante. Outras, porém, não passam, instalam-se na consciência como uma pergunta incômoda. A violência contra mulheres é uma dessas presenças que retornam ciclicamente às manchetes, como se cada novo caso nos surpreendesse, quando, na verdade, o que ele faz é apenas revelar uma ferida antiga da civilização. Não se trata de um fenômeno isolado, tampouco de um acidente moral que ocorre apenas em certos lares ou em determinadas classes sociais. A violência contra a mulher está enraizada em algo mais profundo, mais perturbador e mais humano do que gostaríamos de admitir.
Quando
olhamos para esse fenômeno à luz da psicologia, encontramos uma constatação
que, embora desconfortável, é necessária: a violência não é apenas um desvio;
ela também pertence ao repertório das pulsões humanas. Foi o que apontou Sigmund
Freud ao refletir sobre aquilo que chamou de pulsões de vida e de morte. Para
ele, o ser humano não é movido apenas pela busca de amor, vínculo e
preservação. Existe também uma força que empurra para a destruição, para a
agressividade, para aquilo que rompe e aniquila. A civilização, segundo Freud,
é justamente o esforço coletivo de conter essas pulsões, domesticá-las e
canalizá-las para formas socialmente aceitáveis. No entanto, conter não
significa eliminar. A agressividade permanece ali, latente, aguardando
circunstâncias que a autorizem. E, historicamente, poucas violências foram tão
autorizadas quanto aquela dirigida às mulheres.
A
psicanálise posterior, especialmente nas reflexões de Jacques
Lacan, aprofundou
a ideia de que o sujeito humano se constitui dentro de uma rede simbólica. Uma
trama de discursos, valores e narrativas culturais que antecedem o indivíduo.
Ninguém nasce em um vazio moral. Nascemos em um mundo que já possui histórias
sobre o que significa ser homem e sobre o que significa ser mulher.
E a história
da humanidade, se examinada sem ilusões românticas, revela algo inquietante:
durante séculos, a violência contra a mulher foi naturalizada, justificada ou
simplesmente “invisibilizada”. Em muitas sociedades, a mulher foi tratada como
propriedade. O casamento frequentemente funcionou como um contrato de posse. A
agressão dentro do lar era considerada um assunto privado. E aquilo que hoje
chamamos de violência, durante muito tempo foi descrito como disciplina, honra
ou correção. A cultura não apenas tolerou essa violência; ela frequentemente a
racionalizou.
Quantas
vezes, ainda hoje, diante de uma notícia brutal, surge a pergunta venenosa:
“Mas o que ela fez?” Quantas vezes se procura na vítima uma explicação para a
agressão que sofreu? A linguagem cotidiana revela o quanto certos raciocínios
continuam vivos: ela provocou, ela desrespeitou, ela não obedeceu, ela deveria
ter saído antes.
Esse
movimento psicológico é conhecido. Trata-se de uma tentativa de restaurar uma
sensação de ordem no mundo. Se acreditarmos que a vítima fez algo que
justificou a violência, então podemos manter a ilusão de que estamos seguros,
de que basta agir “corretamente” para evitar o mesmo destino. Mas essa lógica,
além de cruel, é profundamente enganosa. A violência não nasce da vítima. Ela
nasce do agressor e de um contexto que permite que ele exista. E aqui entramos em um ponto
que a psicologia não pode ignorar: o desenvolvimento de um indivíduo violento
raramente ocorre no vazio.
A psicologia
do desenvolvimento e a psicologia comportamental nos lembram que comportamentos
não surgem espontaneamente; eles são aprendidos, reforçados e mantidos ao longo
da vida. O trabalho do pesquisador e criador da Psicologia Comportamental: B. F.
Skinner, demonstrou
que aquilo que chamamos de comportamento é profundamente influenciado pelas
consequências que recebe. Comportamentos que são recompensados tendem a se
repetir; comportamentos que são tolerados tendem a se consolidar.
Quando
observamos trajetórias de homens que se tornam violentos, encontramos com
frequência histórias de infância marcadas por agressão, negligência ou
humilhação. Meninos que cresceram em ambientes onde a violência era linguagem
cotidiana. Meninos que aprenderam cedo que força é sinônimo de poder e que
dominar é uma forma legítima de existir.
Ser vítima de violência, porém, não condena ninguém a se tornar
agressor. O que faz a diferença é aquilo que acontece depois.
A criança
que presencia violência e encontra adultos que nomeiam aquilo como errado, que
oferecem cuidado e limites, pode transformar sua experiência em consciência.
Mas a criança que cresce ouvindo que “homem de verdade é assim”, que “mulher
tem que obedecer”, ou que “briga de casal não se mete a colher”, recebe um tipo
de autorização silenciosa. Não apenas aprende a violência, aprende que ela é
aceitável. E aqui chegamos a
uma responsabilidade que frequentemente preferimos evitar: a responsabilidade
dos pais e dos adultos que educam.
Educar um
menino não é apenas garantir escola, roupa e alimentação. É, sobretudo, ensinar
o que fazer com a própria agressividade. Todo ser humano sente raiva,
frustração e desejo de controle. A diferença entre um adulto civilizado e um
agressor não está na ausência desses sentimentos, mas na capacidade de reconhecê-los
e transformá-los em algo que não destrua o outro.
Quando um
menino cresce ouvindo que não pode chorar, que precisa dominar, que precisa
provar virilidade através da força, estamos moldando uma subjetividade que
associa masculinidade a poder e submissão alheia. Quando ele presencia
agressões contra a mãe, a irmã ou outras mulheres e ninguém intervém, ele
aprende que aquilo é parte do funcionamento do mundo.
A psicologia
comportamental descreve com clareza esse processo: comportamentos reforçados se
consolidam. Um menino que intimida colegas e é admirado por isso aprende que a
violência traz status. Um adolescente que controla a namorada e recebe
aprovação implícita aprende que posse é sinônimo de amor. A cultura, então, completa o
ciclo. Filmes que romantizam ciúmes obsessivos. Piadas
que ridicularizam mulheres. Narrativas que descrevem controle como cuidado.
Cada pequeno gesto social funciona como um micro-reforço, uma mensagem quase
invisível que diz: isso não é tão grave. E assim a
violência se perpetua - não apenas pelos que a praticam, mas também pelos que a
relativizam.
Talvez seja
por isso que certos crimes provoquem uma sensação coletiva de horror. Eles
rasgam o véu da normalidade e nos obrigam a olhar diretamente para aquilo que
preferimos manter fora do campo de visão. O agressor extremo não surge do nada.
Ele é, muitas vezes, o resultado ampliado de pequenas permissões sociais
acumuladas ao longo de décadas. É confortável acreditar que a violência pertence apenas aos monstros.
Mas a psicologia nos ensina algo mais perturbador: monstros são,
frequentemente, humanos comuns que cresceram em contextos que normalizaram o
inaceitável. E é aqui que o debate deixa de ser abstrato.
A violência
contra mulheres não é apenas um problema jurídico ou policial. Ela é, antes de
tudo, um problema moral e cultural. Ela vive nas frases que repetimos sem
pensar, nas atitudes que toleramos, nas intervenções que evitamos por medo de
“nos meter”.
Cada vez que
uma agressão é relativizada, um pedaço da responsabilidade se distribui pela
comunidade. Cada vez que uma vítima é silenciada ou desacreditada, a mensagem
enviada é clara: a violência pode continuar. Talvez a parte mais difícil
desse debate seja justamente esta: reconhecer que a responsabilidade não
pertence apenas aos agressores diretos. Ela pertence
também aos que observam e se calam. Aos que riem de certas piadas. Aos que
educam meninos sem discutir respeito. Aos que aconselham mulheres a suportar em
nome da família. Aos que preferem a tranquilidade da omissão à inquietação da
intervenção.
A
civilização, como lembrava Freud, é um esforço coletivo para conter nossas
pulsões destrutivas. Mas ela só funciona quando esse esforço também é coletivo.
Quando cada indivíduo entende que suas escolhas, mesmo as aparentemente
pequenas, ajudam a definir quais comportamentos serão tolerados ou condenados.
A violência
contra mulheres não começa no momento do crime. Ela começa muito antes, em uma
longa cadeia de permissões. Por isso, talvez a pergunta mais honesta que podemos fazer diante de
cada nova notícia não seja apenas “como isso aconteceu?”, mas “em que momentos
nós, como sociedade, permitimos que isso se tornasse possível?”
Essa
pergunta é desconfortável. Ela desloca o problema para perto demais de nós. Mas
talvez seja exatamente esse desconforto que a consciência precisa sentir. Porque enquanto a violência
for vista apenas como um problema dos outros, ela continuará acontecendo em
silêncio ao nosso redor. E então chega o dia em que a
vítima deixa de ser uma estatística distante. Ela passa a ter um rosto
conhecido. Pode ser uma amiga, uma vizinha, uma filha. Pode ser alguém que
amamos. Nesse momento, percebemos algo que talvez
devêssemos ter entendido muito antes: a violência que toleramos hoje constrói o
mundo em que viveremos amanhã. E, nesse mundo, ninguém
está realmente protegido.
Não se trata
apenas de punir agressores, embora isso seja essencial. Trata-se de romper o
ciclo que os produz. Trata-se de educar meninos para que reconheçam a própria
agressividade sem transformá-la em arma. Trata-se de ensinar que amor não é
posse, que respeito não é opcional e que nenhuma relação legitima o medo. Mas trata-se também de algo
ainda mais difícil: reconhecer que cada um de nós participa da construção da
cultura em que vivemos.
Se a
violência continua existindo, é porque, em algum lugar, ela ainda encontra
permissão. E talvez seja
hora de admitir que, enquanto não enfrentarmos essa verdade com honestidade,
continuaremos lavando as mãos diante de algo que, no fundo, também nos
pertence. Porque a violência contra mulheres não é apenas
o crime de alguns. Ela é, muitas vezes, o silêncio de
muitos.
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