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Envelhecer não deveria ser um ato solitário

Queridos leitores, uma das frases que mais escuto de pacientes idosos no consultório não tem relação direta com dor, doença ou exames. Ela vem carregada de silêncio e abandono: “Doutor, eu me sinto sozinho.”

E essa solidão dói. Dói mais do que muitas doenças.

Vivemos mais, é verdade. A medicina avançou, os tratamentos melhoraram, mas parece que, junto com a longevidade, cresceu também o afastamento afetivo. Muitos idosos chegam à velhice cercados de pessoas… mas sem companhia. Com filhos vivos, saudáveis, produtivos e, ainda assim, ausentes.

É preciso dizer com clareza: a responsabilidade pelo cuidado do idoso é, antes de tudo, da família. Não é apenas uma questão moral ou afetiva. É também uma questão legal. O Estatuto do Idoso é explícito ao afirmar que a família, a sociedade e o Estado têm o dever de assegurar ao idoso dignidade, respeito, convivência familiar e comunitária. E quando falamos em família, falamos principalmente dos filhos.

Alguns argumentam: “Mas meu pai não foi um bom pai”, “Minha mãe foi dura, ausente, falha”. Sim, pais erram. Pais falham. Pais são humanos. Mas o vínculo entre pais e filhos não se extingue com ressentimentos do passado. Ser filho não é um contrato que se rompe quando surgem frustrações. É uma condição permanente.

Cuidar não significa apenas dar dinheiro, pagar um plano de saúde ou delegar tudo a terceiros. Cuidar é presença. É escuta. É visitar. É ligar. É se importar. É perceber que o envelhecimento traz perdas físicas, cognitivas, sociais e que nenhuma delas deveria ser enfrentada sozinho.

A solidão na velhice não é apenas um problema emocional. Ela agrava doenças, acelera declínio cognitivo, aumenta o risco de depressão, de quedas, de internações e até de morte precoce. Solidão adoece e muito.

Como médico, mas também como ser humano, acredito que envelhecer com dignidade passa necessariamente pelo acolhimento familiar. Nenhuma instituição substitui o afeto. Nenhum cuidador contratado substitui um filho presente. Nenhuma justificativa profissional ou pessoal apaga essa responsabilidade.

Precisamos resgatar um valor que parece estar se perdendo: cuidar de quem cuidou de nós. Não como peso, mas como retribuição. Não por obrigação legal apenas, mas por humanidade.

Porque, no fim das contas, todos nós se tivermos a sorte de envelhecer estaremos do outro lado. E a pergunta que fica é simples, direta e incômoda:

quando esse dia chegar, quem estará ao nosso lado?

Tenham todos uma boa semana.

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