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Todos Somos Loucos (Mas Só Alguns Admitem)

Existe uma epidemia silenciosa varrendo o país. Não, não é gripe, não é dengue, 

não é aquele vírus que circula no grupo da família no WhatsApp toda semana com 

nome de erva medicinal que cura tudo. É algo mais sutil, mais moderno, mais 

trendy. É a epidemia do autodiagnóstico psicológico, e ela já chegou, com toda 

certeza, na sua roda de amigos, no seu escritório e, sejamos honestos, 

provavelmente no seu próprio espelho.

Há uma frase antiga, dessas que a avó dizia enquanto descascava mandioca e não 

precisava de terapia para processar seus traumas porque tinha um roçado para 

capinar, que resume tudo com precisão cirúrgica: “De médico e de louco todo 

mundo tem um pouco.” Só que a versão atual dessa sabedoria popular precisaria 

de um pequeno upgrade. Algo como: “De médico, de louco e de transtorno mental 

devidamente catalogado no DSM-5 com nome bonito em inglês, todo mundo tem 

um pouco.” Ficou menos poético, eu sei. Mas ficou muito mais preciso.

Porque o que aconteceu, minha gente, foi o seguinte: em algum momento entre o 

surgimento do TikTok e a pandemia, esse intervalo de tempo que vai ser estudado 

por historiadores como “o período em que todo mundo enlouqueceu de verdade”, 

descobrimos que ter um diagnóstico psicológico não era mais algo a ser escondido, 

mas algo a ser ostentado. E aí o bicho pegou.

Antigamente, se alguém era um pouco agitado, a família dizia que era “elétrico”. Se 

era tímido, era “recatado”. Se ficava triste às vezes, era “sensível”. Se esquecia as 

coisas, era “cabeça no ar”. A sociedade tinha um glossário inteiro de eufemismos 

carinhosos para comportamentos que hoje ganhariam siglas, laudos e uma 

prescrição. Hoje, não. Hoje, aquele colega que manda mensagem de madrugada 

está com ansiedade. Aquele que esquece compromissos tem TDAH. Aquele que 

não gosta de barulho é altamente sensível. Aquele que prefere ficar em casa a sair 

é introvertido, e não só introvertido, mas introvertido com traços de 

neurodiversidade, por favor, não confunda. A tia que sempre foi dramática? 

Transtorno de personalidade, claramente. A prima que briga com todo mundo? 

Problemas de regulação emocional. O chefe insuportável? Narcisista com 

tendências sociopatas, e há um vídeo no YouTube de quarenta e sete minutos 

explicando exatamente isso, com animações e tudo.

A psicologia popularizou-se de uma forma tão veloz e tão ampla que parece que 

saímos de um extremo e chegamos no outro com uma rapidez espantosa. Durante 

décadas, ninguém falava sobre saúde mental. Sofrimento era coisa para engolir, 

guardar, levar para o túmulo como herança para os filhos. Depois, num estalo de 

dedos histórico, passamos a falar de saúde mental o tempo todo, em todo lugar, 

com todo mundo, exceto, curiosamente, com um profissional de saúde mental de 

verdade.Existe uma diferença fundamental, que muita gente parece não ter percebido 

ainda, entre ter um transtorno e colecionar diagnósticos como se fossem figurinhas 

do álbum da Copa. Uma coisa é buscar compreender por que você funciona do jeito 

que funciona, aceitar as próprias limitações, pedir ajuda e trabalhar para ter uma 

vida melhor. Outra coisa, completamente diferente, é passar três horas no TikTok 

assistindo a vídeos de “sinais de que você tem TDAH” e sair de lá com a certeza 

inabalável de que sim, aquilo explica tudo: a bagunça do quarto, o atraso nas 

contas, a procrastinação e, claro, o fato de ter assistido três horas de TikTok em vez 

de trabalhar.

O diagnóstico virou acessório. Virou identidade. Virou, em alguns casos, a resposta 

para perguntas que não foram nem feitas ainda. “Ah, desculpa o atraso, é o meu 

TDAH.” “Não consegui terminar o projeto, é a minha ansiedade.” “Não liguei no seu 

aniversário porque estava num episódio depressivo.” Tudo explicado, tudo 

justificado, tudo embalado num vocabulário clínico que dá ao comportamento uma 

aura de inevitabilidade quase mística. E aqui mora o paradoxo mais fascinante 

dessa época: as pessoas querem o diagnóstico com uma intensidade fervorosa, 

mas a ideia do tratamento, ah, essa é outra conversa. Tratamento dá trabalho. 

Tratamento implica mudança. Tratamento exige que você apareça toda semana 

numa sala e fale sobre coisas que preferia não falar, com uma pessoa que vai te 

fazer perguntas incômodas e não vai aceitar “é o meu transtorno” como resposta 

final.

Imagine a seguinte cena: você vai ao médico, ele examina seu tornozelo e diz que 

está fraturado. Você agradece, pega o diagnóstico, posta uma foto do laudo no 

Instagram com a legenda “finalmente me sentindo visto”, e vai embora. Sem gesso, 

sem imobilização, sem fisioterapia. Mas com uma nova identidade: pessoa com 

tornozelo fraturado. Capenga, mas validada. Absurdo? Claro. Mas é exatamente o 

que acontece com uma parcela considerável das pessoas que hoje “se identificam” 

com transtornos mentais. O diagnóstico, muitas vezes autoaplicado depois de um 

quiz online ou de uma série de vídeos de divulgação, funciona como um ponto de 

chegada, não de partida. É como se o simples ato de nomear o problema já fosse 

suficiente para resolvê-lo. Ou melhor: para justificá-lo.

Há uma diferença brutal entre dizer “estou em tratamento para ansiedade” e dizer 

“sou ansioso”. Uma fala implica processo, movimento, trabalho. A outra implica 

identidade fixa, imutável, quase um cartão de visitas. “Olá, me chamo Fulano, sou 

de Capricórnio, tenho TDAH, ansiedade e síndrome do impostor. Não me peça para 

chegar no horário.”

Seria ingênuo não mencionar que existe uma indústria próspera e bem nutrida por 

trás de tudo isso. Não me refiro à psicologia séria e responsável, à psiquiatria que 

literalmente salva vidas. Me refiro ao ecossistema paralelo de coaches de saúde mental sem formação alguma, de cursos online que ensinam a “identificar seus 

traumas de infância em 5 passos”, de influenciadores que transformaram o próprio 

sofrimento em conteúdo e o conteúdo em receita. Não é difícil entender o apelo. 

Vivemos numa época em que a vida é genuinamente mais complexa, mais 

acelerada, mais solitária em vários aspectos. A saúde mental importa de verdade. 

O sofrimento psíquico é real. A necessidade de ser visto, compreendido e não 

julgado é profundamente humana. Quando alguém aparece numa tela e diz “eu 

também sinto isso, isso tem um nome, você não está sozinho”, o alívio é imediato e 

legítimo. O problema é quando esse alívio se torna o destino, e não o início da 

jornada. Quando saber o nome do que você tem substitui o trabalho de lidar com o 

que você tem.

É muito mais agradável ficar procurando o próximo vídeo que explique, de forma 

animada e com música de fundo, por que você é exatamente do jeito que é, e por 

que isso não é culpa sua, e por que você merece ser abraçado exatamente assim. 

Não é que isso seja errado. É que isso não basta.

A terapia de verdade, aquela feita com profissional formado, de forma consistente, 

com disposição para o desconforto, é uma das coisas mais radicais que uma 

pessoa pode fazer por si mesma. Não porque seja fácil. Justamente porque não é. 

Ela pede que você olhe para lugares que preferia não olhar. Que questione histórias 

que você contou sobre si mesmo a vida inteira. Que assuma responsabilidade por 

padrões que seria muito mais confortável atribuir a um transtorno externo a você, 

como se fosse um vírus que você pegou sem querer. A terapia de verdade não te dá 

um diagnóstico e te manda embora satisfeito. Ela te pergunta: “e agora, o que você 

vai fazer com isso?” É uma pergunta inconveniente. É uma pergunta que a maioria 

das pessoas prefere não ouvir.

Voltemos à sabedoria da vovó, porque ela merece. “De médico e de louco todo 

mundo tem um pouco” é uma frase de uma generosidade enorme. Ela reconhece 

que a fronteira entre a saúde e o adoecimento nunca foi uma linha nítida, que todos 

nós carregamos nossas neuroses, nossas manias, nossos medos irracionais e 

nossas zonas de sombra. Ela humaniza o sofrimento sem o patologizar. Ela diz, com 

simplicidade e afeto: ninguém aqui é completamente normal, e tudo bem. O que a 

vovó não previu, porque estava ocupada demais sendo funcional para ter tempo de 

se autodiagnosticar, é que um dia a gente ia transformar esse “pouco de louco” num 

documento oficial, num crachá, numa narrativa identitária completa com hashtag.

A saúde mental importa. Transtornos mentais são reais, sérios e historicamente 

subdiagnosticados e subvalorizados. Pessoas que sofreram durante anos sem 

nome para o que sentiam finalmente encontraram linguagem, comunidade, 

validação, e isso é genuinamente bom. Quebrar o estigma em torno da saúde 

mental é uma conquista civilizatória que não devemos menosprezar. Mas há uma diferença entre quebrar o estigma e transformar o diagnóstico em moda. Entre falar 

abertamente sobre saúde mental e usar vocabulário clínico como escudo para 

evitar responsabilidade. Entre buscar ajuda de verdade e colecionar laudos como 

troféus de sofrimento autenticado.

Talvez o que toda essa febre diagnóstica esteja tentando dizer, por baixo de todo o 

vocabulário clínico e dos testes online, seja algo muito mais simples: eu sou 

complexo, eu sofro, eu preciso ser visto. Esse é um pedido legítimo. Tão legítimo 

quanto qualquer diagnóstico. A pergunta é se vamos responder a esse pedido com 

um nome técnico e uma comunidade no Instagram, ou com a disposição, mais 

trabalhosa, mais assustadora e muito mais transformadora, de realmente fazer algo 

a respeito.

De médico e de louco todo mundo tem um pouco. A diferença está em quem decide 

ficar só com o diagnóstico e quem decide, a despeito de todo o esforço que isso 

exige, tentar ficar um pouco melhor. A vovó, provavelmente, resolveu isso 

capinando o roçado. Cada um com os seus métodos.

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