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O luto que ninguém nos ensinou: sobre saber perder

Domingo à noite, o Brasil perdeu de 2 a 1 para a Noruega e foi eliminado da Copa do Mundo. Antes que o apito final terminasse de ecoar, as redes já estavam cheias de imagens: crianças de dez, onze anos ateando fogo em álbuns de figurinhas incompletos; um adolescente rasgando as páginas dedicadas à seleção; comerciantes recolhendo às pressas camisas que não vão mais vender. E, dentro de campo, Neymar, aos 34 anos, na provável despedida de sua história em Copas, discutindo com o goleiro adversário antes de cobrar o pênalti, e rindo na cara dele depois de marcar, como quem vence uma guerra particular no meio de uma derrota coletiva.

Fiquei pensando nessas cenas por dias. Não porque sejam extraordinárias; o futebol brasileiro já nos deu cenas piores, e provavelmente nos dará outras, mas porque elas dizem, com uma clareza quase didática, algo que como psicóloga eu vejo todos os dias no consultório e que como escritora não consigo deixar de nomear: nós nunca aprendemos a perder. Não aprendemos a sentir a dor da perda sem transformá-la, imediatamente, em destruição.

Comecemos pelas crianças, porque é nelas que a cena dói mais e ensina mais. Uma criança de dez anos que queima seu álbum de figurinhas não está sendo "mimada" ou "sem educação", como tantos comentários apressados quiseram dizer. Ela está fazendo, com os recursos emocionais que tem disponíveis, a única coisa que sabe fazer com uma frustração enorme demais para caber dentro do corpo: descarregá-la para fora, rápido, de um jeito que produza um efeito visível e imediato. O fogo é espetacular. A destruição alivia por um segundo e depois cobra um preço, porque o álbum queimado não volta, e o vazio que a perda deixou continua lá, agora acompanhado de um segundo problema: a coisa que era querida foi destruída pelas próprias mãos.

Isso não é maldade. É a ausência, ainda em construção, daquilo que a psicologia chama de tolerância à frustração: a capacidade de sentir um afeto intenso e desagradável sem precisar agir sobre ele imediatamente para fazê-lo parar. Essa capacidade não nasce pronta. Ela se constrói, devagar, através de milhares de pequenas experiências em que um adulto por perto ajuda a criança a atravessar a decepção em vez de fugir dela ou de suprimi-la. "Que droga, perdemos mesmo. Você ficou triste com o álbum incompleto, né? Isso dói." Simples assim. Nomear, validar, ficar ao lado.

O que choca, nos vídeos que circularam, não é exatamente o gesto das crianças, é a presença de adultos ao redor, muitas vezes rindo, filmando, e em alguns casos ajudando a rasgar as páginas. Quando o adulto se torna cúmplice da descarga em vez de conter e traduzir o sentimento, a criança aprende uma lição perigosa: que a dor da perda se resolve destruindo o que resta dela. É uma lição que ela vai carregar para muito além do futebol.

E aqui chegamos a Neymar, porque o que vimos em campo não foi tão diferente do que vimos nas ruas, só que travestido de sofisticação, de “camisa dez”, de instinto competitivo.

Um jogador de 34 anos, na sua provável última partida de Copa do Mundo pelo Brasil, perdendo por dois gols, discute com o goleiro adversário antes de bater um pênalti. Marca. E, em vez de correr para dentro de campo tentar puxar a virada impossível que o time ainda precisava buscar, para rir na cara do adversário. Provoca. Cria confusão. Leva cartão amarelo. Quase é expulso.

Não escrevo isso para julgar o homem, não conheço sua história, sua dor, o peso de encerrar assim um ciclo que começou quando ele ainda era uma criança. Escrevo para observar o padrão, porque o padrão é o mesmo da criança com o álbum: a dor da perda, sentida como insuportável, precisa sair para algum lugar, e sai como ataque, como provocação, como necessidade de vencer uma briga pequena para compensar a derrota grande.

É curioso e triste notar que quanto mais o jogo escorregava das mãos do Brasil, mais a energia de Neymar parecia se concentrar não em tentar reverter o resultado, mas em ganhar aquele duelo pessoal com o goleiro. Como se, diante da impotência de não poder mudar o placar, restasse a ele ao menos vencer alguma coisa, nem que fosse uma provocação, nem que fosse o último round de uma luta que o time já tinha perdido.

Isso também não é maldade, no sentido moral do termo. É imaturidade emocional, a mesma imaturidade emocional das crianças com o fósforo na mão, só que num corpo adulto, com décadas de carreira, milhões de espectadores e a responsabilidade simbólica de ser, para muita gente, referência do que significa vestir aquela camisa.

Vale a pena perguntar: por que, afinal, perder dói tanto? Porque toda perda, seja um jogo, um relacionamento, um emprego, uma vida, ativa em nós algo muito mais antigo do que o resultado em si. Perder mexe com a nossa sensação de controle sobre o mundo, com a fantasia de que, se fizermos tudo certo, o final será o que esperamos. Quando o final não é o que esperamos, alguma coisa em nós vive uma pequena versão do desamparo: a sensação de que o mundo não obedece aos nossos desejos, de que não temos o poder que gostaríamos de ter.

Esse desamparo é insuportável de sentir puro. Por isso, buscamos transformá-lo rapidamente em outra coisa: em raiva, que dá a ilusão de força; em destruição, que dá a ilusão de ação; em provocação, que dá a ilusão de vitória em outro terreno, já que no terreno principal perdemos. A raiva é sempre mais confortável de sentir do que a tristeza, porque a raiva nos coloca numa posição ativa, e a tristeza nos coloca numa posição de vulnerabilidade e aceitação. Ninguém gosta de ficar vulnerável em praça pública.

O problema é que essa transformação tem um custo. Quando pulamos direto da dor para a destruição, sem passar pelo luto sem realmente sentir a tristeza, reconhecê-la, deixá-la ocupar seu espaço a dor não vai embora. Ela só troca de roupa. Fica ali, disfarçada de agressividade, à espera da próxima oportunidade para explodir. E cada vez que a descarregamos assim, reforçamos o caminho neural e emocional que nos diz: "isso é o que se faz quando dói". Da próxima vez, será mais fácil repetir, e mais difícil aprender outra coisa. Há algo profundamente contraintuitivo, mas verdadeiro, nessa ideia: aceitar a derrota com dignidade não é resignação nem fraqueza. É, na verdade, uma forma de liberdade.

Quando alguém consegue perder e dizer, olhando nos olhos do adversário, "você jogou melhor, parabéns", sem provocação, sem desculpa amarga, sem precisar destruir nada, essa pessoa está exercendo um tipo raro e valioso de força: a força de tolerar a própria vulnerabilidade sem precisar transformá-la em violência, nem virá-la contra si mesma em vergonha. É poder dizer "eu queria muito, doeu muito, e ainda assim eu me mantenho inteiro" sem precisar que o mundo pague pelo tamanho da minha dor.

O espírito esportivo, no fundo, nunca foi sobre o jogo. É sobre isso: sobre a capacidade humana de desejar intensamente, entregar-se de verdade, e ainda assim sobreviver ao não alcançar o que se desejava, sem se destruir e sem destruir o outro no processo. É uma das lições emocionais mais sofisticadas que existem e é exatamente por isso que ela precisa ser ensinada, porque ninguém nasce sabendo.

E aqui talvez esteja o convite mais importante deste texto: dar-se a permissão de sentir tristeza pela perda, sem pressa de transformá-la em outra coisa. Chorar se precisar chorar. Ficar quieto se precisar ficar quieto. Dizer "estou triste, isso doeu" sem que isso seja fraqueza, sem que precise virar bode expiatório, provocação ou fogueira. A tristeza bem vivida - sentida, nomeada, atravessada - não destrói ninguém. Ela apenas nos lembra de que nos importamos, de que investimos afeto em alguma coisa, e que perder o que amamos dói porque amamos de verdade. Não há nada de errado nisso. O erro está em não sabermos ficar com essa dor tempo suficiente para que ela, sozinha, se transforme em outra coisa: em aceitação, em memória, em torcida renovada para a próxima vez.

As crianças que queimaram seus álbuns provavelmente vão comprar outro álbum daqui a quatro anos. Neymar provavelmente vai ser lembrado, com toda razão, por sua genialidade e por tudo o que deu ao futebol brasileiro ao longo de duas décadas. Nenhuma dessas cenas define, para sempre, quem essas pessoas são.

Mas elas nos convidam a uma reflexão que vale bem além do futebol: como estamos, coletivamente, lidando com nossas frustrações? Quantas vezes, diante de uma decepção pequena ou grande, pulamos direto para a raiva, para a provocação, para a necessidade de destruir alguma coisa, só para não precisar sentir, por alguns minutos, o desamparo simples e humano de não ter conseguido o que queríamos?

Talvez a maior vitória não estivesse em vencer a Noruega. Talvez estivesse, para todos nós - adultos inclusive - em conseguir, diante da bola que não entra, olhar para a própria tristeza sem medo dela, e sair de campo de cabeça erguida, inteiros, sem precisar incendiar nada pelo caminho.

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