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Idoso ao volante: o problema não é a idade, é o risco que pode ser evitado

Queridos leitores, nas últimas semanas nossa cidade acompanhou com preocupação notícias envolvendo idosos e acidentes de trânsito. Como médico geriatra, senti a necessidade de refletir sobre esse assunto, não para apontar culpados, mas para promover conscientização.

A primeira mensagem precisa ser muito clara: envelhecer não significa perder a capacidade de dirigir. Aliás, diversos estudos mostram que os idosos, em geral, dirigem com mais prudência, respeitam mais a sinalização, excedem menos a velocidade e assumem menos comportamentos de risco do que motoristas mais jovens. A idade, por si só, não pode ser considerada um fator de incapacidade para conduzir um veículo. 

O que realmente merece nossa atenção são as condições de saúde que podem surgir com o envelhecimento. Alterações na visão, audição, tempo de reação, doenças neurológicas, uso de medicamentos que provocam sonolência e, principalmente, o consumo de bebidas alcoólicas podem transformar uma atividade rotineira em um grande perigo.

Infelizmente, o alcoolismo na terceira idade é um problema silencioso. Muitas vezes ele passa despercebido pela própria família. A aposentadoria, a solidão, o luto, a depressão e o isolamento social podem favorecer o aumento do consumo de álcool. O organismo do idoso também metaboliza o álcool de maneira mais lenta, fazendo com que pequenas quantidades provoquem maior comprometimento do equilíbrio, dos reflexos, da memória e da capacidade de julgamento. Quando associado aos medicamentos de uso contínuo, esse risco aumenta ainda mais. 

Os números também preocupam. Dados recentes mostram que as mortes no trânsito relacionadas ao consumo de álcool voltaram a crescer no Brasil após a pandemia, reforçando que a combinação entre álcool e direção continua sendo um dos maiores desafios da segurança viária. 

Por isso, precisamos abandonar preconceitos e investir em prevenção. Conversar com o médico sobre a capacidade para dirigir deve ser encarado com naturalidade. Em alguns casos, pequenas adaptações resolvem o problema, como evitar dirigir à noite, em dias de chuva ou em trajetos mais longos. Em outros, talvez seja o momento de reduzir gradativamente a direção. Essa decisão não representa perda de independência, mas demonstra responsabilidade consigo mesmo e com toda a sociedade.

As famílias também desempenham um papel fundamental. Em vez de críticas ou imposições, é preciso acolher, observar mudanças de comportamento, incentivar hábitos saudáveis e buscar ajuda quando houver suspeita de uso abusivo de álcool.

Dirigir é um símbolo de autonomia. Preservar essa autonomia exige responsabilidade, honestidade e cuidado. A melhor prevenção não acontece depois do acidente. Ela começa muito antes, com informação, acompanhamento médico e escolhas conscientes.

Cuidar da saúde também é cuidar da segurança no trânsito. E essa é uma responsabilidade que pertence a todos nós. Tenham todos uma boa semana.

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