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Manual Prático da Mulher de Cinquenta: Como Não Surta Enquanto Todo Mundo Finge que Está Tudo Ótimo

Se você é uma mulher de cinquenta hoje, parabéns. Você está vivendo a fase mais exigente, mais contraditória e mais engraçada da história da humanidade. Somos praticamente a versão turbo da mulher dos anos oitenta, aquela figura quase mitológica que não precisava fazer skin care, não precisava parecer jovem, não precisava ser produtiva em tudo e, principalmente, não precisava lidar com o Instagram empurrando goela abaixo a vida perfeita de outras mulheres. A mulher dos anos oitenta vivia. Nós performamos.

Ela acordava, tomava café, colocava uma roupa qualquer e seguia o dia. Não precisava que o look fosse versátil, atemporal, curadoria pessoal. Era só roupa. Hoje, nós acordamos e já começamos a trabalhar antes mesmo de abrir os olhos. Alongamento para não travar a lombar, respiração consciente para regular o cortisol, água morna com limão para desintoxicar alguma coisa misteriosa, checagem mental das oito horas de sono recomendadas, gratidão pela vida e só então se levantar. A mulher dos anos oitenta se levantava. Apenas isso.

Depois vem o skin care. A mulher dos anos oitenta lavava o rosto com água e sabão. Às vezes nem isso. Hoje, nós temos uma rotina com mais passos que uma coreografia da Madonna. Sabonete específico, tônico, sérum antioxidante, sérum hidratante, sérum que promete rejuvenescer até a alma, creme para o pescoço, creme para os olhos, protetor solar, protetor solar com cor, protetor solar sem cor, hidratante labial que custa o preço de um jantar. E tudo isso antes das oito da manhã.

A academia também mudou. A mulher dos anos oitenta fazia ginástica localizada com uma fita cassete da Jane Fonda e estava resolvido. A mulher de cinquenta hoje precisa fazer musculação para manter massa magra, pilates para a postura, yoga para a mente, HIIT para o metabolismo, alongamento para não virar uma estátua de sal ao longo do dia. Caminhar não basta. Caminhar é quase uma ofensa ao universo fitness.

E tem a menopausa. A mulher dos anos oitenta simplesmente vivia a menopausa. Suava, reclamava, abria a janela e seguia a vida. Hoje, nós temos que viver a menopausa com elegância, informação, reposição hormonal, fitoterápicos, suplementação, dieta anti-inflamatória, exercícios específicos, terapia e ainda sorrir como se estivéssemos participando de uma campanha publicitária sobre a melhor fase da vida.

Além disso, somos mães. E não qualquer tipo de mãe. Somos mães perfeitas. A mulher dos anos oitenta mandava o filho para a escola com lanche de pão com manteiga e achava ótimo. Hoje, nós temos que mandar lanche saudável, sem açúcar, sem glúten, sem lactose, sem ultraprocessados, sem alegria. E ainda postar no Instagram com a legenda feito com amor.

E claro, trabalhamos. E não é qualquer trabalho. É trabalho com performance. Temos que ser produtivas, criativas, resilientes, estratégicas, colaborativas, inovadoras, comunicativas, tecnológicas e ainda sorrir nas reuniões. A mulher dos anos oitenta trabalhava. Apenas isso.

Quando chegamos em casa, ainda temos que lidar com o marido. Ele muitas vezes está vivendo a melhor fase da vida porque, ao contrário de nós, não precisa fazer skin care, não precisa parecer jovem, não precisa ser multitarefa, não precisa ser perfeito. Ele só precisa existir. E já é considerado ótimo.

Tem também a família. A mãe que precisa de ajuda, o pai que precisa de atenção, o irmão que precisa de conselhos, o sobrinho que precisa de carona. A mulher dos anos oitenta ajudava a família, claro. Mas não tinha que ser a CEO emocional da árvore genealógica inteira.

E ainda tem a casa. Cozinhar, fazer compras, organizar, limpar, planejar, pagar contas, resolver problemas, trocar lâmpadas, lembrar de datas, marcar consultas, cancelar assinaturas, renovar documentos. A mulher dos anos oitenta fazia tudo isso também, mas sem a sensação de que estava participando de uma olimpíada invisível.

E quando finalmente conseguimos uma folga, o que fazemos? Viajamos com as amigas. Porque viajar com as amigas aos cinquenta é praticamente um ritual de sobrevivência. É terapia em grupo, é risada garantida, é libertação temporária da função de cuidadora universal. Mas até isso vem com pressão. Precisamos escolher hotéis instagramáveis, fazer fotos espontâneas que levam vinte tentativas, registrar cada refeição, cada pôr do sol, cada taça de vinho. Porque, se não postar, parece que nem viajamos.

E aí vem o Instagram, esse ser onipresente que insiste em nos mostrar mulheres de cinquenta que parecem ter vinte e cinco. Elas acordam às cinco da manhã para meditar, correr, fazer yoga, preparar café orgânico, trabalhar em três projetos, cuidar da família, manter a casa impecável, viajar todo mês e ainda postar fotos com legendas inspiradoras. Enquanto isso, nós estamos aqui, tentando lembrar onde deixamos os óculos de leitura.

A verdade é que nós, mulheres de cinquenta, somos uma mistura de Martha Medeiros com Tati Bernardi. Poéticas, irônicas, cansadas, fortes, engraçadas, profundas e sempre com a sensação de que estamos atrasadas para alguma coisa. Somos o resultado de décadas de evolução, revolução e pressão. Somos incríveis, mas exaustas. Somos potentes, mas humanas. Somos modernas, mas às vezes só queríamos ser uma mulher dos anos oitenta com uma lata de leite condensado e zero culpa.

E apesar de tudo isso, seguimos. Seguimos porque somos resilientes. Seguimos porque somos inteligentes. Seguimos porque somos engraçadas. Seguimos porque aprendemos a rir da própria rotina. Seguimos porque descobrimos que a vida aos cinquenta não é sobre ser perfeita. É sobre sobreviver com humor, leveza e uma boa dose de autoironia.

A mulher dos anos oitenta tinha menos obrigações. Nós temos mais. Mas temos também mais consciência, mais liberdade, mais voz, mais autonomia e, principalmente, mais coragem para dizer: eu faço tudo, mas não faço milagres.

E talvez seja isso que nos define. Não somos super-heroínas. Somos mulheres reais, com rugas, histórias, hormônios oscilando, listas infinitas e uma capacidade absurda de transformar caos em crônica, cansaço em riso e rotina em poesia.

Porque, no fim das contas, ser uma mulher de cinquenta hoje é isso. Viver no limite entre o colapso e a gargalhada e ainda parecer ótima na foto.

 

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