Um domingo com o mundo do tamanho certo
Imagine uma manhã de algumas décadas atrás. O jornal chegava à porta, ainda com cheiro de tinta, e era lido com calma, página por página, talvez com um café ao lado. Na cozinha, o rádio já estava ligado, como estava todas as manhãs, espalhando pela casa a voz do locutor, uma música antiga, um boletim rápido sobre o trânsito ou o tempo. À noite, a família se reunia diante da televisão para assistir ao noticiário, que durava meia hora, tinha começo, meio e fim, e então terminava. Entre uma coisa e outra, havia o dia inteiro para viver. Para trabalhar, conversar, cuidar dos filhos, olhar pela janela, entediar-se um pouco. A notícia tinha hora marcada, e a vida, o resto do tempo.
Hoje o cenário é outro. O mundo
não espera mais a manhã seguinte nem o horário nobre. Ele vibra no bolso,
acende a tela, interrompe o almoço, invade a madrugada. Em poucos minutos
ficamos sabendo de um acidente de ônibus em outro estado, de um crime em outro
continente, de uma tragédia que aconteceu a milhares de quilômetros e que,
ainda assim, parece ter acontecido na rua ao lado. Pergunto então ao leitor,
neste domingo, uma coisa simples: será que o mundo ficou mais perigoso, ou será
que ficamos mais expostos a ele?
Essa pergunta não tem resposta
fácil, e não pretendo fingir que tem. Há problemas reais, sofrimentos reais,
violências que não podem ser minimizadas. Mas a psicologia nos ensina que a
nossa percepção de risco não depende apenas dos fatos. Ela depende de quanto,
como e com que frequência esses fatos chegam até nós. Um conceito conhecido
como heurística da disponibilidade descreve exatamente isso: tendemos a julgar
que algo é comum ou provável na medida em que conseguimos lembrar de exemplos
com facilidade. Quando abrimos o celular e encontramos dezenas de imagens de
acidentes, assaltos e catástrofes, nossa mente passa a ter um estoque enorme de
exemplos à mão. E conclui, de forma quase automática, que o perigo está em toda
parte.
Há ainda um detalhe importante.
Nosso cérebro evoluiu para prestar atenção ao que ameaça. Esse viés de
negatividade foi, por muito tempo, uma ferramenta de sobrevivência, e quem
percebia o ruído suspeito na mata tinha mais chance de escapar. O problema é
que esse mecanismo, desenhado para um mundo de pequenos grupos e perigos
próximos, hoje é alimentado por um fluxo contínuo de alertas vindos de todo o
planeta. Notícias ruins chamam mais atenção, são mais compartilhadas e, por
isso mesmo, são mais entregues a nós pelos algoritmos. O que prende a atenção
rende, e o que assusta prende a atenção. Não é uma conspiração, é uma lógica de
funcionamento, e ela encontra em nós um terreno biológico muito receptivo.
O que acontece com o corpo diante
dessa avalanche? Cada manchete alarmante pode ativar o sistema de resposta ao estresse.
O coração acelera, a respiração encurta, a musculatura se prepara para uma
ameaça que, quase sempre, não está diante de nós e para a qual não há nada que
possamos fazer naquele instante. A reação é de luta ou fuga, mas o corpo
continua sentado no sofá. Repetida muitas vezes ao dia, essa ativação sem
desfecho vai cobrando o seu preço, que aparece em forma de inquietação,
irritabilidade, sono leve, dificuldade de concentração, sensação de que algo
ruim está prestes a acontecer. É cada vez mais comum ouvir pessoas descrevendo
um medo difuso, sem endereço certo, resumido numa frase como “não sei bem do
que tenho medo, mas sinto que o mundo está perigoso demais”.
Vale lembrar também que a notícia
de antigamente tinha uma espécie de moldura. O jornal impresso e o telejornal
passavam por edição, tinham limite de espaço e de tempo, e isso, com todas as
suas falhas, funcionava como um filtro. Havia um começo e um fim. Terminado o
noticiário, terminava o contato. Hoje não existe fim. O feed é infinito, a atualização
é permanente, e a próxima notícia está sempre a um gesto do polegar. Sem pontos
de parada, o cérebro não recebe o sinal de que pode descansar, e seguimos
rolando a tela em busca de mais informação, como se a próxima atualização fosse
trazer a segurança que a anterior não trouxe.
E o rádio? Penso muito nele
quando falo desse assunto. Quase toda cozinha tinha um, ligado desde cedo,
fazendo companhia enquanto o café coava e o almoço era preparado. Ele trazia as
notícias na medida certa, em boletins curtos, de voz serena, que informavam sem
atropelar. Mas trazia também a música, o humor, a crônica, o conselho do
locutor, a dedicatória ao ouvinte que fazia aniversário. A programação era
variada, e o conjunto tinha um equilíbrio quase terapêutico: um pouco de mundo,
um pouco de riso, um pouco de canção. A notícia dura vinha entremeada de
leveza, e o ouvinte seguia fazendo o que estava fazendo, com as mãos na massa e
a atenção ainda inteira na própria vida. O rádio acompanhava a rotina sem
sequestrá-la. Hoje, a informação que deveria ser uma companhia virou uma
exigência de atenção total, e a diversão, que antes se misturava à notícia,
ficou de um lado, enquanto o alarme ficou do outro.
E aqui chegamos a uma pergunta
que me parece essencial: para que serve tanta informação em tempo real? Estar
bem informado é valioso, e não pretendo sugerir o contrário. Saber o que
acontece na nossa cidade, no nosso país, nas decisões que afetam a nossa vida,
é parte do exercício da cidadania. Mas há uma diferença entre estar informado e
estar sobrecarregado. Quantas das notícias que recebemos ao longo de um dia nos
permitem, de fato, tomar alguma decisão, mudar algum comportamento, agir de
alguma maneira útil? Quase nenhuma. A maioria apenas passa por nós, deixa um
rastro de tensão e segue. Saber, minuto a minuto, de tudo o que dá errado no
mundo não nos torna mais preparados, torna-nos mais assustados.
Existe ainda o que eu chamaria de
ilusão de controle. Acompanhar tudo em tempo real dá a sensação de que, se
estivermos atentos o bastante, estaremos protegidos, como se vigiar o perigo
fosse o mesmo que evitá-lo. Mas a ansiedade se alimenta justamente dessa
vigilância. Quanto mais checamos, mais precisamos checar, e o alívio dura cada
vez menos. É um ciclo que conhecemos bem na clínica, parecido com qualquer
outro comportamento de checagem repetitiva, em que a tentativa de reduzir o
desconforto acaba por mantê-lo.
Também precisamos falar do que se
perde enquanto estamos conectados ao mundo inteiro. A atenção é um recurso
finito. Cada minuto dedicado a acompanhar o sofrimento distante é um minuto
retirado do que está perto: da conversa com o filho, do almoço sem pressa, do
trabalho feito com presença, do silêncio que também é cuidado. Quando
fechávamos o jornal, desligávamos a televisão e íamos viver, havia uma
concentração mais inteira no que tínhamos diante de nós. A vida acontecia com
mais foco, mais atenção e, de certo modo, com um pouco mais de paz. Não por
ingenuidade ou alienação, mas porque o mundo tinha o seu horário, e a vida
cotidiana tinha o dela.
Será, então, que o mundo piorou?
Os dados, em muitas áreas, contam histórias mais complexas do que a sensação
que temos. Em vários lugares, indicadores de saúde e longevidade melhoraram ao
longo das décadas, e certas formas de violência diminuíram, ao mesmo tempo em
que outros desafios persistem ou se agravam. Talvez nenhum de nós consiga
sustentar um veredito definitivo, e tudo bem. O que posso afirmar, com
tranquilidade, é que a nossa sensação de perigo cresceu mais do que a nossa
capacidade de processá-la. E talvez seja isso, mais do que qualquer
estatística, o que mais nos atinge hoje: não necessariamente que haja mais mal
no mundo, mas que ele agora chega inteiro, todos os dias, até nós.
A boa notícia, se me permitem a
expressão, é que este é um campo em que temos escolha. Não podemos desligar o
mundo, mas podemos modular a nossa relação com ele. Modular é a palavra que eu
gostaria de deixar com você hoje, porque ela não pede radicalismo. Não se trata
de abandonar as notícias, de se isolar numa bolha ou de fingir que nada
acontece. Trata-se de dosar, como fazemos com qualquer coisa que, em excesso,
adoece.
Algumas possibilidades são
simples. Escolher horários para se informar, uma ou duas vezes ao dia, em vez
de deixar que a informação escolha o momento por nós. Optar por poucas fontes
confiáveis, em vez de uma torrente de links e compartilhamentos. Desativar
notificações que não sejam realmente essenciais. Deixar o celular fora do
quarto à noite, protegendo o sono, que é uma das primeiras vítimas do excesso
de estímulo. Perceber, durante o uso das telas, como o corpo reage: se o
maxilar travou, se a respiração ficou curta, se surgiu aquela inquietação. O
corpo costuma avisar antes da mente, e escutá-lo é um ato de autocuidado.
E também escolher, com intenção,
os momentos sem tela. Uma caminhada sem fones, uma refeição sem notificação,
uma conversa olho no olho, um domingo como este, em que o tempo possa se
alargar. Quem sabe até religar o velho rádio da cozinha, ou o aplicativo que
faz o mesmo papel, e deixar que uma música ou um programa leve ocupe a casa,
sem exigir que a gente olhe, role ou responda. Esses intervalos não são fuga da
realidade. São o que nos devolve a capacidade de encarar a realidade com mais
clareza e mais recursos emocionais. Uma mente que descansa percebe melhor,
decide melhor e cuida melhor de quem está ao seu lado.
Fecho com um convite. Que, ao
terminar esta leitura, você faça a si mesmo uma pergunta gentil: quanto do medo
que sinto hoje nasce do que vivi, e quanto nasce do que apenas vi? Não há
resposta certa, e a reflexão já é o primeiro passo. Talvez o mundo não esteja
tão pior quanto parece. Talvez esteja, em alguns aspectos. Mas, em qualquer dos
casos, a vida que acontece à nossa volta, a xícara quente, a voz de alguém que
amamos, a música baixinho na cozinha, a luz de uma manhã de domingo, continua
exigindo da gente a mesma coisa de sempre: presença. E presença só cabe onde
existe um pouco de espaço.
Bom domingo.
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