Terra Santa: disputa histórica segue sem solução e desafia a paz mundial
A persistência dos conflitos na chamada Terra Santa segue como um dos temas mais complexos e sensíveis da geopolítica contemporânea. Com raízes que remontam à Antiguidade e atravessam disputas religiosas, interesses territoriais e intervenções internacionais, a tensão entre judeus e árabes continua a gerar impactos profundos no cenário global. Para compreender as origens históricas desse embate e seus desdobramentos ao longo do tempo, é fundamental analisar os fatores que moldaram essa disputa e os desafios que ainda dificultam uma solução pacífica duradoura.
A Gazeta de Limeira entrevista Bruno Salheb M. Ribeiro,
professor de História há 18 anos, natural de Limeira, formado pela Unicamp e
com especialização em Educação. Ele leciona na ETEC Trajano Camargo e coordena
a classe descentralizada da instituição em Cosmópolis.
Quais fatores históricos explicam o início dos conflitos entre judeus e árabes na região da Terra Santa?
Os hebreus – povo antigo que se estabeleceu na região da Palestina entre 2000 a.C. e a diáspora judaica do século II d.C. desenvolveram o judaísmo, religião que se tornou monoteísta ao longo de um processo que incluiu a reforma do rei Josias (século VII a.C.) e se consolidou após o retorno do cativeiro babilônico (538 a.C.). A cosmovisão produzida por esse monoteísmo conferiu ao povo uma firme ideia de excepcionalismo: passaram a se ver como escolhidos por Deus, e a Palestina como terra prometida. A luta dos hebreus por Sião ou Canaã, conforme a Bíblia – justificava processos políticos de concentração de poder e tensões com os povos nativos.
Apesar dessa visão grandiloquente, os hebreus eram frágeis diante dos impérios da época, como o egípcio, o babilônico e, por fim, o romano, que os dominaram. As revoltas contra o domínio romano tiveram momentos de grande tensão, como a Grande Revolta Judaica (66 d.C.) e a Revolta de Bar Kokhba (132-135 d.C.). O general romano Tito reprimiu os rebeldes com tamanha violência que resultou na destruição de Jerusalém (70 d.C.) e na diáspora judaica. Esse movimento marca a dispersão forçada do povo hebreu, que se espalhou pela Europa (judeus asquenazes e judeus sefarditas) e pela África (Beta Israel), embora uma pequena parcela tenha permanecido vivendo nas proximidades do rio Jordão.
Já os árabes, povo antigo, tribal e politeísta da região da Península Arábica e do Golfo – dedicavam-se à pequena agricultura e ao comércio de caravanas. Também passaram por um processo de reforma monoteísta, conduzido por Maomé (Muhammad) no início do século VII d.C. A revelação dada por Alá e registrada pelo profeta no Alcorão conferiu unidade identitária às diversas tribos, criando uma forma de coesão que antecedeu o que modernamente se chamaria de pan-arabismo. Com a expansão do Islã e a formação do Califado Rashidun (632–661 d.C.) e, posteriormente, do Califado Omíada (661–750 d.C.), a região da Palestina passou a integrar o Califado de Damasco a partir de 636 d.C., processo que durou cerca de 140 anos até a transição para o domínio abássida.
É possível observar que a convivência entre esses povos, apesar de alguns conflitos por terra e pela proximidade do rio, não representava historicamente um problema para além dos relatos contidos nos textos religiosos. No período do domínio abássida (750–1258 d.C.), em razão da determinação corânica revelada a Maomé no período de Medina que ordenava não haver violência contra os povos não muçulmanos considerados "do Livro" (judeus e cristãos) –, estabeleceu-se apenas a cobrança de um imposto específico, a jizya, sobre aqueles que não se convertessem ao Islã.
De que forma a criação do Estado de Israel, em 1948, intensificou as tensões com os palestinos?
A questão judaica na Europa marcada pela perseguição aos judeus desde a Diáspora, tanto pela Inquisição durante a Idade Média e o início da Idade Moderna quanto posteriormente por grupos nacionalistas passou a ocupar espaço central no debate político do século XIX. Com o fim da Primeira Guerra Mundial e a dissolução do Império Otomano, a região da Palestina tornou-se alvo do colonialismo inglês. O ministro inglês Arthur Balfour, então secretário do Exterior, prometeu aquela terra tanto a grupos árabes que a habitavam desde a expansão islâmica quanto a grupos judeus e a cristãos dispensacionalistas ingleses – os chamados sionistas, que acreditavam na profecia apocalíptica de que o fim do mundo se daria a partir da reconstrução do mítico Templo de Salomão.
Com o Holocausto judaico na Segunda Guerra Mundial (a Shoah) e a criação da ONU, a construção do Estado de Israel – composto por famílias de descendentes da tradição hebraica na Europa, pessoas que já não possuíam mais relação direta com aquele território – tornou-se imprescindível, em detrimento da população nativa. Esse processo se deu às custas de outro massacre: a Nakba, um holocausto palestino.
As guerras que se seguiram, como a Primeira Guerra Árabe-Israelense (1948-1949), a Guerra dos Seis Dias (1967) e a Guerra do Yom Kippur (1973), ocorreram por diversos fatores expostos acima: a ideia de excepcionalismo judaico, a disputa por regiões estratégicas, como as Colinas de Golã, a resistência pan-arabista — neste caso, o pan-arabismo moderno, ligado a partidos Baath e aos nacionalismos árabes do Egito e do Líbano —, e o colonialismo do Reino Unido e dos EUA, que viam Israel, segundo as palavras do senador estadunidense Joe Biden, como “um porta-aviões dos EUA para a dominação do Oriente Médio”.
Qual foi o papel das potências internacionais na consolidação e no agravamento desse conflito ao longo do século XX?
As ações de pessoas como Balfour, responsável direto pela aventura sionista — de grupos religiosos dispensacionalistas, que justificavam moralmente a invasão da região, e a necessidade dos EUA de garantir na Ásia Ocidental um quartel-general durante a Guerra Fria para sufocar movimentos socialistas e anticoloniais são, de fato, as estruturas que construíram esse processo infindável de violências.
Como as diferenças religiosas entre judeus, muçulmanos e cristãos influenciam a disputa pelo território?
São religiões muito parecidas. Monoteísmos originários da Ásia Ocidental que, inclusive, compartilham ideias, mitos e personagens como Abraão, por exemplo. O uso dessas religiões por grupos políticos é a questão central: o emprego da ideia de "povo escolhido/terra prometida" para justificar a eliminação do povo palestino; o uso do dispensacionalismo para garantir o apoio popular no Ocidente às ações colonialistas de potências como EUA e Inglaterra; e a resistência a esse processo, interpretada de maneira religiosa pela vertente fundamentalista dos povos islâmicos da região.
Por que a região entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo é considerada estratégica e simbólica para ambos os povos?
Podendo ser chamada de Canaã ou Sião, a Palestina carrega significados religiosos diversos. Terra prometida para os judeus, é onde estariam as ruínas do mitológico Templo de Salomão – o chamado Muro das Lamentações. Para os cristãos, é onde se encontra o Santo Sepulcro; para os muçulmanos, a mesquita de Al-Aqsa. Os povos ali inseridos são diversos e têm representações religiosas diferentes daquele espaço. No fim das contas, para além do aspecto religioso, a disputa é pela casa, pela terra, pela família, pelos espaços de convivência, de trabalho e de memória.
Quais são os principais obstáculos históricos e políticos para a construção de uma solução pacífica duradoura na região?
Essa pergunta é bastante subjetiva. A questão, porém, pode ser vista como externa à região: não se trata de obstáculos históricos ou políticos inerentes àqueles espaços, mas de disputas por poder e riquezas de grandes potências centrais, que encontraram uma maneira de justificar processos de colonização e extermínio utilizando representações religiosas compartilhadas tanto no Ocidente quanto na Ásia Ocidental como um todo. Não se percebe nenhum agente europeu ou norte-americano buscando soluções para esses, a guerra é interessante e lucrativa. A resposta de Edward Said, mais importante intelectual sobre a questão da Ásia Ocidental e Palestina, no qual me baseio para afirmar que a questão aqui é sobre colonialismo, seria a coexistência pacífica entre esses grupos, mas não a qualquer preço. É necessário que se rompa com o etnocentrismo europeu e com o orientalismo, com essa representação que se faz da palestina e dos palestinos lhes tirando a humanidade e a existência, nos discursos, imagens, reportagens e na vida.
Edward Said, o mais importante intelectual palestino sobre a questão da Ásia Ocidental, auxilia na resposta a essa pergunta. Said defendia a coexistência pacífica entre os grupos – porém não a qualquer preço. Ele argumentava ser necessário romper com o etnocentrismo europeu e com o orientalismo, ou seja, com essa representação que se faz da Palestina e dos palestinos, que lhes tira a humanidade e a própria existência – nos discursos, nas imagens, nas reportagens e na vida cotidiana. Enquanto essa desumanização persistir, sustentada por interesses coloniais, qualquer solução pacífica será apenas uma fachada.
Como os acontecimentos recentes, como a restrição de acesso de líderes católicos à Igreja do Santo Sepulcro refletem o agravamento do conflito na Terra Santa e impactam a liberdade religiosa na região?
Esse fato, a restrição na Igreja do Santo Sepulcro – soma-se a outros, como a invasão da Mesquita de Al-Aqsa pelo exército de Israel em 1967 (durante a Guerra dos Seis Dias) e 1990 (no massacre de Al-Aqsa), o bombardeio do espaço sagrado cristão em 1948 (durante a guerra de independência de Israel, que atingiu igrejas em Jerusalém) e a morte do líder religioso sheikh Ahmed Yassin em 2004. Enfim, não se trata de um agravamento, mas de uma continuidade das violências que são justificadas pelo Ocidente e, ao mesmo tempo, retroalimentam o mesmo processo religioso-moralista.
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