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População negra é protagonista de uma trajetória que atravessa os 200 anos de Limeira

Limeira chega aos 200 anos com uma história marcada por diferentes povos, trajetórias e experiências. Desde sua fundação, em 1826, o município viveu mais de seis décadas sob o regime escravocrata. A abolição da escravidão, em 1888, encerrou legalmente esse período, mas seus efeitos não desapareceram de imediato. Em uma cidade do interior, com diversas fazendas, a mudança nas relações sociais e de trabalho ocorreu de forma gradual. Nesse contexto, a população negra não é apenas parte da história de Limeira, mas protagonista de sua construção social, cultural e econômica até os dias de hoje.

Para representantes do Conselho Municipal dos Interesses do Cidadão Negro (COMICIN), essa participação ainda não aparece de forma suficiente nos registros oficiais e na narrativa sobre a formação do município. O conselho defende o resgate de personagens, instituições e espaços que ajudam a compreender a presença negra na construção da cidade e sua importância para a identidade de Limeira.

A presidenta do COMICIN, Ewelyng Teodoro, e a vice-presidenta, Benedita Aparecida Faustino Duarte, relataram à Gazeta a importância de analisar prédios e espaços históricos também sob essa perspectiva. Entre os exemplos estão o Palacete Levy e a Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte. Segundo as representantes, a construção desses locais ocorreu em um período no qual o trabalho da população negra escravizada teve papel importante na formação do município.

O Palacete Tatuibi também integra essa discussão. Após uma visita à parte inferior do imóvel, as representantes levantaram a possibilidade de o espaço ter sido utilizado por pessoas escravizadas. A hipótese, contudo, depende de documentos e pesquisas históricas que possam confirmar a função original do ambiente.

A trajetória da população negra também se estende ao período posterior à abolição. Para o COMICIN, a assinatura da Lei Áurea, em 1888, não provocou uma transformação imediata das relações sociais e econômicas. Por isso, a história da população negra após o fim da escravidão também precisa integrar a narrativa dos 200 anos de Limeira.

Entre as personagens lembradas pelo conselho está Maria Soldado, mulher negra que participou da Revolução Constitucionalista de 1932. Sua trajetória é apontada como exemplo de uma história que recebeu pouco reconhecimento ao longo do tempo. O COMICIN participou de ações para recuperar e divulgar a história da personagem.

Outra referência é Dona Generosa, mulher negra que se destacou na educação e chegou ao cargo de secretária municipal. O conselho também destaca personalidades e lideranças do Movimento Negro de Limeira, como Padre Maurício, Galdino, Elisa Gabriel, Dirce, Bomba, José Benedito (IEG) e senhora Veraiz. Para as representantes, essas trajetórias fazem parte da construção cultural, intelectual e política do movimento negro no município.

O Grêmio Recreativo Limeirense também ocupa espaço nessa memória. Com cerca de 80 anos de existência, a instituição é apontada pelo movimento negro como local de convivência, organização comunitária e valorização cultural. Para o COMICIN, a permanência do clube ao longo das décadas representa uma forma de resistência e de criação de espaços de participação para a comunidade negra.

Criado em 8 de dezembro de 1993, o COMICIN acumula mais de três décadas de atuação em Limeira. O conselho tem caráter consultivo e deliberativo e participa das discussões sobre políticas públicas relacionadas à igualdade racial. Para as representantes, a própria continuidade da instituição representa uma conquista diante da dificuldade de manutenção de conselhos municipais ao longo do tempo.

Entre os avanços institucionais citados pelo conselho estão a retomada do Departamento de Igualdade Racial, a elaboração do Plano Municipal de Igualdade Racial e a adesão de Limeira ao Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Sinapir). O município também recebeu encontros de conselhos estaduais de igualdade racial, com participação de representantes do Ministério da Igualdade Racial, e aderiu ao Pacto das Cidades Antirracistas.

Na avaliação do COMICIN, essas medidas ajudam a transformar reivindicações históricas em políticas públicas e ampliam os instrumentos de participação e acompanhamento do poder público. A criação de estruturas específicas também contribui para manter a igualdade racial na agenda municipal, independentemente das mudanças de governo.

Outro avanço citado envolve as cotas no serviço público. Segundo as representantes, o modelo anterior utilizava apenas a autodeclaração racial. O COMICIN defendeu a adoção da banca de heteroidentificação, responsável por verificar os critérios previstos na política de reserva de vagas. A medida passou a integrar concursos e processos seletivos e é considerada uma conquista pelo conselho, embora ainda possa ser aperfeiçoada.

Para Benedita, preservar essas trajetórias significa ampliar o conhecimento sobre a própria cidade. “A nossa história precisa ser contada, escrita e guardada”, afirma. Ewelyng também destaca a permanência do conselho como resultado da mobilização construída ao longo das décadas. “O próprio COMICIN já está aí há mais de 30 anos de história e continua. Quantos conselhos municipais conseguem se manter? ”, questiona.

Ao celebrar dois séculos, Limeira também tem a oportunidade de revisitar as histórias que ajudaram a formar sua identidade. A trajetória da população negra integra esse patrimônio histórico e social. Resgatá-la significa reconhecer personagens, instituições, movimentos e conquistas que atravessaram gerações e contribuíram para a cidade que Limeira é hoje e para aquela que ainda será construída.


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