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Kenzo: "Jogo usando por baixo a camisa do meu irmão que morreu"

O meia Kenzo Morikawa, de 22 anos, é um dos grandes destaques do Independente no Campeonato Paulista da Segunda Divisão. Foi dele inclusive o primeiro gol na vitória sobre o São Carlos por 2 a 1, domingo passado no Pradão. Foi o quarto resultado positivo do Galo na competição, único time 100% na Bezinha.

Kenzo vem se recuperando de uma grande tragédia familiar. Em fevereiro de 2019, o meia galista perdeu seu "irmão" Vitor Isaías, no incêndio no Ninho do Urubu. O limeirense Rikelmo Viana também foi una das vítimas fatais.

Apesar de não terem o mesmo sangue, os dois se tratavam como irmãos. E essa bonita relação foi abraçada pela família Morikawa, tanto é verdade, que o saudoso atacante fazia questão de chamar o seu Sérgio de pai e dona Janaína de mãe.

Kenzo contou que seu pai buscava o atacante todos os dias em sua casa para levá-lo para os treinos do futsal da APAFF (Associação dos Pais e Atletas de Futsal), em Florianópolis.

E o amor, carinho e respeito eram tão grande das partes, que na sexta-feira, Vitor já ficava na casa de Kenzo, onde passava o sábado e o domingo, só retornando na segunda-feira, uma vez que estudava perto de sua casa. "A vontade dele era ficar com a gente o tempo todo. Era impressionante como a gente se dava bem", recordou.
Kenzo contou que seu pai pegou até a procuração de Vitor para representá-lo, lhe dando mais segurança na carreira.    
Em 2014, pelo Figueirense, foi o goleador máximo e campeão da Copa Catarinense Sub-11. Já pelo Athletico/PR, foi artilheiro da ES-CUP, disputada em 2017.
Os dois acabaram tomando rumos diferentes. Kenzo permaneceu no Athletico/PR, enquanto Vitinho foi para o Flamengo. Os dois se falavam todos os dois, como verdadeiros irmãos.

No dia da tragédia, Kenzo contou que estava no alojamento do Athletico. "Quando acordei, vi vários jogadores da base ao meu redor e todos estavam em silêncio. Senti que eles queriam me contar algo, mas não tinham coragem. Um deles portava uma lista nas mãos e me entregou. Vi que o nome do meu irmão estava nela. Foi então, que com calma, me deram a notícia do incêndio. Fiquei sem reação. Eu só pensava no Vitor", lembrou.

Logo em seguida, um diretor do Athletico o levou de Curitiba para Florianópolis de carro para o sepultamento. "Foi um baque muito grande nas nossas vidas. Apesar de ter morrido há sete anos, ele ainda está presente em mim. Sinto sua presença em cada jogo que faço. Sei que ele está no céu torcendo por mim. Foi muito difícil minha mãe aceitar, tanto é verdade que ela passou a viajar longas distâncias só para me ver jogar. Acho que era o medo de me perder também. Foi bem complicado. Hoje minha família está um pouco melhor. O tempo ameniza, mas a saudade persiste e muito", confidenciou.

Kenzo disse que, desde a morte do seu irmão, usa a camisa que sua família fez em sua homenagem por baixo do manto de jogo. "Eu me fortaleço todas as vezes que visto essa camisa por baixo. Parece que ele está em meu corpo e que juntos corremos por um propósito maior. Pode parecer mentira, mas um dia acabei não colocando essa camisa. Foi um dos piores jogos da minha vida. Essa camisa vai comigo até o fim da minha carreira, não importa o estado que ela estiver", afirmou.

Kenzo, que jogou nas bases de Athletico/PR e Internacional/RS, aceitou o desafio de jogar a Bezinha deste ano e foi atraído pela proposta do empresário Saulo Roncatto. "Eu estava no futebol amazonense e quando veio o interesse do Galo, não pensei duas vezes. Nasci em Limeira e fui embora com um ano para Santa Catarina. Poder voltar 21 anos e ainda jogar no time da minha cidade, é uma satisfação muito grande", elogiou.

Seus pais permanecem em Florianópolis a exemplo da namorada Julia (com quem está há três anos), mas Kenzo, o japoneizinho que encanta a torcida galista a cada jogo, mora com seus avós, perto do clube Ítalo. O meia é neto de dona Rosa e do famoso massagista Serginho. "Meus avós me dão todo o suporte necessário para que eu continue atrás dos meus objetivos. Eles são fundamentais nesse processo e sou grato aos dois", completou.

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