Fechamento do Centro de Autismo revolta mães em Cordeirópolis
A decisão de fechar o Centro de Autismo de Cordeirópolis (CACo) provocou preocupação e revolta entre mães de crianças atendidas pela unidade. O anúncio da Prefeitura, que prevê a transferência dos pacientes para o Centro de Referência do Autismo, mantido pela APAE de Cordeirópolis, surpreendeu as famílias, que questionam se haverá estrutura e profissionais suficientes para garantir a continuidade dos tratamentos.
Na tentativa de obter esclarecimentos, mães se reuniram ontem na Secretaria Municipal de Saúde e foram recebidas pela prefeita Cristina Saad e pela secretária de Saúde, Maria Jane da Silva Silveira. A principal preocupação é com os impactos da mudança na rotina das crianças, especialmente em relação à manutenção das terapias e dos vínculos construídos com os profissionais que já as acompanham.
Atualmente, 55 crianças são atendidas pelo CACO. As mães ouvidas pela Gazeta, que preferiram não ser identificadas por receio de represálias, afirmam que a decisão desconsidera a importância da continuidade dos tratamentos e temem que a transferência comprometa a qualidade da assistência.
“Como mãe, meu coração fica apertado diante do fechamento do CACO. São 55 crianças que não são apenas números, são filhos, histórias e famílias que lutam todos os dias pelo desenvolvimento e pelo bem-estar dos nossos pequenos. Nós, mães, conhecemos de perto o carinho, a dedicação e a qualidade do trabalho realizado pelos profissionais desde quando foi inaugurado”, relatou uma das responsáveis.
Ela afirma que as famílias são contrárias ao encerramento e questiona se a APAE terá condições de absorver a demanda sem prejuízo aos atendimentos. “Agora, com a transferência para a APAE, se é que vai acontecer, fica a preocupação: haverá espaço, profissionais e estrutura para atender a todos sem prejudicar as terapias? Nossos filhos não podem ser tratados como números. Cada criança importa”, afirmou.
Outra mãe também demonstrou indignação com a decisão e saiu em defesa dos profissionais que atuam no centro. Segundo ela, as famílias acompanham de perto o trabalho desenvolvido e reconhecem a dedicação da equipe. “É revoltante ver a gestão tentar colocar em dúvida a honestidade e a dedicação dos profissionais do CACO. Quem é mãe e acompanha o trabalho de perto, uma ou duas vezes por semana, sabe o quanto essas pessoas se dedicam aos nossos filhos”, declarou.
Ela também questiona a capacidade da APAE de absorver os pacientes do CACO sem comprometer os atendimentos que já são realizados pela instituição. “A APAE também faz um excelente trabalho, mas não adianta colocar mais de 100 crianças sob sua responsabilidade e dizer que o problema está resolvido. Isso não é solução, é colocar em risco a qualidade do atendimento. É fácil tomar uma decisão atrás de uma mesa; difícil é olhar nos olhos das famílias e explicar como nossos filhos ficarão daqui para frente”, afirmou.
Em nota, a Prefeitura de Cordeirópolis informou que a decisão ocorreu diante da manifestação do Grupo Levemente, responsável pela operação do Centro de Autismo, de encerrar as atividades da unidade no município. Segundo a administração, as providências foram adotadas para garantir que os pacientes não fiquem sem atendimento.
A partir de segunda-feira (9), as terapias passarão a ser realizadas pelo Centro de Referência do Autismo da APAE de Cordeirópolis. A Prefeitura também informou que entrou em contato com os profissionais que atualmente trabalham no CACO e organiza a contratação de aproximadamente 80% da equipe, com o objetivo de preservar os vínculos terapêuticos e reduzir os impactos da transição.
A administração municipal afirmou ainda que a prioridade
é manter a qualidade da assistência, respeitando as necessidades individuais de
cada criança. A gestão também informou que está no planejamento a construção de
um novo Centro de Autismo Municipal.
Uma reunião para prestar esclarecimentos aos pais e responsáveis foi marcada para segunda-feira (9), às 10h, na Câmara Municipal, localizada na rua Carlos Gomes, 999, no Jardim Jafet. O encontro terá a participação da prefeita e da secretária de Saúde.
EMPRESA CONTESTA VERSÃO DA PREFEITURA
A versão apresentada pela Prefeitura é contestada pela Levemente Soluções em Qualidade de Vida, responsável pela operação do CACO. Em nota oficial encaminhada à Gazeta, a empresa afirma que não comunicou uma decisão definitiva de encerramento das atividades, tampouco estabeleceu uma data para interromper os atendimentos.
Segundo a instituição, o que foi comunicado à Secretaria Municipal de Saúde, por meio de documentos enviados nos dias 14, 19 e 23 de outubro, foram dificuldades econômico-financeiras relacionadas ao número reduzido de pacientes encaminhados pelo município, situação que estaria comprometendo a sustentabilidade da operação.
A empresa afirma que, em 5 de novembro, sua proprietária, Paula Lima Mellilo, participou de uma reunião previamente agendada na Secretaria de Saúde para discutir alternativas que permitissem manter o serviço. Entretanto, segundo a nota, ao chegar ao encontro, foi apresentada uma comunicação oficial já preparada, manifestando concordância com o encerramento imediato das atividades, sem espaço efetivo para discutir as propostas apresentadas.
A Levemente afirma que buscou alternativas para evitar a interrupção dos atendimentos. Entre elas, cita o encaminhamento de crianças que aguardam na fila por atendimento, inclusive famílias que procuraram diretamente a instituição, e a mudança na modalidade de remuneração, com a substituição do pagamento por pacote pelo pagamento por sessão.
De acordo com a empresa, as propostas tinham como objetivo melhorar a viabilidade financeira da unidade e preservar os atendimentos, os profissionais e os vínculos terapêuticos construídos com as crianças. A instituição também afirma que não formalizou ao CISMETRO, contratante do serviço, qualquer pedido de encerramento contratual ou solicitação de interrupção imediata dos tratamentos. Segundo a Levemente, mesmo diante das dificuldades financeiras, a intenção era cumprir os procedimentos previstos no contrato, que estabelecem antecedência mínima de 30 dias para a iniciativa de encerramento por parte da prestadora, permitindo uma transição planejada.
Na manifestação, a empresa também contesta informações sobre supostas inadequações na estrutura física do centro e questionamentos relacionados à qualidade dos serviços. Afirma que o espaço é adequado à finalidade assistencial e que não procede a informação sobre cheiro de esgoto no imóvel.
Ao final da nota, a instituição reforçou que a mudança de
local não deve ser tratada apenas como uma transferência administrativa, já que
os tratamentos envolvem planejamento, continuidade e vínculos entre pacientes e
profissionais. “Tratamentos especializados não se resumem à transferência de um
endereço para outro. Envolvem continuidade, planejamento, vínculos
profissionais e respeito ao desenvolvimento de cada paciente”, afirma a
empresa.
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