“A gripe K não deve ser encarada como uma gripe comum”
O avanço da chamada gripe K acendeu um sinal de alerta entre autoridades de saúde no Brasil e no mundo. Identificada como uma variante do vírus Influenza A (H3N2), a doença tem apresentado circulação antecipada e crescimento de casos em diferentes regiões, especialmente no Hemisfério Norte, cenário que costuma servir de indicativo para o que pode ocorrer no país nos meses seguintes. No Brasil, o Ministério da Saúde já confirmou o registro de ao menos um caso, o que reforça a necessidade de atenção, vigilância e prevenção.
Para esclarecer o que é a gripe K, quais os riscos
associados, o papel da vacinação e as medidas que a população deve adotar
diante desse novo contexto, a Gazeta entrevistou o médico Dr. Fábio Argenta,
diretor médico e sócio-fundador da Saúde Livre Vacinas, rede especializada em
imunização. Na entrevista, o especialista explica por que o subtipo H3N2
preocupa, quem está mais vulnerável às complicações e como a antecipação da
vacinação pode ser decisiva para reduzir internações e óbitos.
O que é a gripe K
e por que ela voltou a chamar a atenção das autoridades de saúde?
A gripe K é uma doença respiratória que pode causar
sintomas como febre, tosse, dor no corpo e dor de garganta, entre outros. De
acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), trata-se de uma variante do
vírus Influenza A, subtipo H3N2. A preocupação dos especialistas aumentou após
alertas e notas técnicas da OMS e da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas),
que indicam crescimento e antecipação da circulação desse vírus em diversas
regiões do mundo, especialmente no Hemisfério Norte. Além disso, no Brasil, o
Ministério da Saúde já confirmou que um caso da gripe K foi identificado no
Brasil. A informação é do Informe Vigilância das Síndromes Gripais referente à
semana epidemiológica 49, divulgado no dia 12 de dezembro.
O que significa,
na prática, o alerta da OPAS sobre uma temporada de gripe mais precoce e
intensa?
O início precoce da temporada antecipa o período de maior circulação do
vírus, consequentemente aumentando o número de casos e aumentando também
os atendimentos ambulatoriais e internações. Os grupos de risco (idosos, crianças
pequenas, gestantes, pessoas com doenças crônicas e imunossuprimidos) podem
apresentar quadros mais graves e complicações, como pneumonias. Por isso a
vacinação precisa ser antecipada e ampliada, para que a população esteja
protegida antes do pico de transmissão. Em resumo, o alerta indica a necessidade de
ação preventiva imediata, tanto por parte das autoridades de saúde quanto da
população, para reduzir impactos, complicações e óbitos associados à gripe.
A vacina contra a
influenza oferece proteção contra a gripe K?
As vacinas disponíveis contra a influenza A oferecem
proteção contra as formas graves da gripe, incluindo aquelas causadas pelo
subclado K. Embora não impeçam totalmente a infecção, elas reduzem
significativamente o risco de complicações, hospitalizações e óbitos. Assim, a
vacinação é fundamental para evitar os desfechos mais graves da doença e
proteger a saúde pública.
O aumento de casos
no Hemisfério Norte pode indicar o que o Brasil deve enfrentar nos próximos
meses?
Sim. O aumento de casos no Hemisfério Norte costuma funcionar como um
indicador antecipado do que o Brasil pode enfrentar nos próximos meses, pois,
os mesmos vírus respiratórios tendem a circular globalmente, seguindo padrões
sazonais semelhantes, apenas em períodos diferentes. O aumento intenso no Norte
sugere que o Brasil pode vivenciar maior circulação do vírus da gripe, com
elevação de casos, internações e óbitos, especialmente durante o outono e
inverno. Há também possibilidade de maior impacto sobre grupos vulneráveis,
como idosos, crianças, gestantes e pessoas com comorbidades. Esse cenário
reforça a necessidade de antecipar a vacinação, fortalecer a vigilância
epidemiológica e preparar os serviços de saúde para maior demanda. Além
disso,
indica também a importância de reforçar medidas preventivas, como higiene
respiratória e identificação precoce de casos. Portanto, o que ocorre no Hemisfério Norte
serve como um alerta estratégico, permitindo ao Brasil se preparar para uma
temporada de gripe potencialmente mais precoce e intensa.
A gripe K
(influenza A H3N2) representa um risco maior em comparação às gripes sazonais
anteriores?
Sim. A gripe K (influenza A H3N2) pode representar um risco maior em
comparação a algumas gripes sazonais anteriores, especialmente por estes
fatores: maior capacidade de transmissão: o subtipo H3N2 tende a se espalhar mais
rapidamente na população, favorecendo surtos intensos. Maior
gravidade clínica: está historicamente associado a mais hospitalizações e
óbitos, principalmente entre idosos, crianças pequenas, gestantes e pessoas com
doenças crônicas. Variações do vírus: mutações podem reduzir a imunidade prévia da
população, aumentando o número de pessoas suscetíveis. Impacto nos
serviços de saúde: o aumento de casos pode levar à sobrecarga do sistema de
saúde, especialmente em períodos de pico. Importância da vacinação: embora a vacina não
impeça todos os casos, ela reduz significativamente formas graves e
complicações; baixa cobertura vacinal amplia o risco coletivo. Portanto, a
gripe K não deve ser encarada como uma gripe comum, exigindo atenção reforçada,
prevenção, vacinação em tempo oportuno e vigilância epidemiológica constante.
Quais são os
principais sintomas da gripe K e quando eles tendem a se agravar?
Os sintomas são semelhantes aos da gripe sazonal e podem
surgir de forma repentina. Entre os mais comuns estão cansaço, indisposição e
sintomas respiratórios, como nariz entupido e coriza, causados pela inflamação
das vias aéreas. A tosse também é frequente, podendo variar de leve a mais
persistente, assim como a dor de garganta, que causa desconforto ao engolir ou
falar.
O registro de
casos no Brasil, inclusive importados, preocupa as autoridades de saúde?
Sim. O registro de casos no Brasil, inclusive casos importados, é motivo
de preocupação para as autoridades de saúde, porque casos
importados indicam introdução precoce do vírus no país, podendo antecipar a
circulação comunitária antes do período esperado. A presença do vírus aumenta o
risco de transmissão sustentada, especialmente em locais com grande fluxo de
pessoas. Pode haver rápida disseminação, sobretudo se a população ainda não
estiver amplamente vacinada. Grupos vulneráveis ficam mais expostos a formas
graves da doença, elevando o risco de hospitalizações e óbitos. O cenário exige
reforço da vigilância epidemiológica, monitoramento de surtos, rastreamento de
casos e preparação da rede de saúde. E também sinaliza a necessidade de
intensificar campanhas de vacinação e medidas preventivas.
Portanto, embora o registro inicial de casos não signifique, por si só,
uma emergência, ele funciona como um alerta estratégico, permitindo que ações
preventivas sejam adotadas para reduzir o impacto da gripe no país.
As vacinas contra
a gripe disponíveis atualmente oferecem proteção contra o H3N2?
Sim.
Quem deve procurar
a vacinação com mais urgência neste momento?
Todos devem se vacinar anualmente contra a influenza A,
já que o vírus passa por mutações, exemplo disso, é a variante K.
Quais grupos estão mais vulneráveis às
complicações da gripe K?
Por questões imunológicas, crianças menores de 5 anos,
idosos, gestantes, puérperas, pessoas com doenças crônicas e com
imunodeficiência têm maior risco de desenvolver quadros pulmonares graves, como
pneumonia e a síndrome respiratória aguda grave (SRAG), que podem ser
desencadeadas pela gripe e podem evoluir a óbito.
Como a população
pode diferenciar um quadro gripal comum de uma situação que exige atendimento
médico?
Enquanto a gripe comum costuma evoluir de forma benigna,
a presença de sinais de gravidade ou agravamento clínico indica a necessidade
de avaliação médica imediata. Quadro gripal comum:
geralmente pode ser manejado em casa, com repouso e
hidratação: febre baixa ou moderada, dor de garganta, coriza e espirros, tosse
leve, dor no corpo e mal-estar e melhora progressiva em poucos dias. Já situações que
exigem atendimento médico e devem ser avaliadas por um profissional de
saúde: febre alta persistente (acima de 38,5 °C por mais de 2–3 dias); falta de
ar, chiado ou dificuldade para respirar; dor no peito; cansaço extremo ou
prostração; confusão mental, tontura ou sonolência excessiva; piora dos
sintomas após aparente melhora e vômitos persistentes ou sinais de
desidratação. Atenção redobrada aos grupos de risco: idosos, crianças pequenas,
gestantes, pessoas com doenças crônicas ou imunossuprimidas devem procurar
atendimento mais precocemente, mesmo com sintomas iniciais.
Que cuidados e
medidas de prevenção você recomenda diante desse novo cenário?
Vacinar-se anualmente contra a gripe, respeitando o
calendário do Ministério da Saúde. Priorizar a vacinação de grupos de risco
(idosos, gestantes, crianças, profissionais de saúde e pessoas com
comorbidades). Manter o esquema vacinal atualizado, pois a vacina reduz casos
graves, internações e óbitos.
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