Foto de capa da notícia

Volta às aulas traz alerta para o bullying

Com o retorno às aulas, não apenas os estudos são retomados, mas também a convivência entre alunos, grupos e amizades, trazendo à tona desafios próprios do ambiente escolar. Em entrevista à Gazeta de Limeira, o psicólogo Rafael Falco alertou para o crescimento dos casos de bullying e a necessidade de um enfrentamento baseado no diálogo, na escuta e na parceria entre família e escola. O alerta encontra respaldo nos dados do Atlas da Violência 2025, elaborado pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública com base em informações de 2023, que apontam aumento superior a 30% na violência escolar ao longo de uma década. Os relatos de bullying cresceram de 30,9% em 2009 para 40,5% em 2019, revelando um cenário preocupante.

De acordo com Falco, o bullying não pode ser encarado apenas como um problema disciplinar ou pedagógico, pois envolve diretamente a saúde emocional de crianças e adolescentes, a qualidade das relações sociais e, mais recentemente, aspectos legais. Desde janeiro de 2024, o bullying e o ciberbullying passaram a ser tipificados como crimes no Brasil, por meio da Lei nº 14.811, que alterou o Código Penal Brasileiro. Para o especialista, compreender o que caracteriza o bullying é essencial para evitar a banalização do termo. “Não se trata de conflitos pontuais ou brigas isoladas, mas de uma violência recorrente, marcada por atitudes agressivas repetidas, físicas ou verbais, com a intenção de humilhar, intimidar ou ferir, geralmente dentro de uma relação desigual de poder”, explicou à Gazeta de Limeira.

O psicólogo ressalta que o avanço das tecnologias ampliou o alcance desse tipo de violência. Quando as agressões acontecem por meio de redes sociais, aplicativos de mensagens ou outros ambientes virtuais, configura-se o ciberbullying, cujos impactos emocionais podem ser ainda mais intensos, já que a exposição tende a ser contínua e difícil de controlar. Entre os principais sinais de alerta estão mudanças bruscas de comportamento, isolamento, tristeza constante, irritabilidade, ansiedade sem causa aparente, queixas frequentes de dores de cabeça ou estômago, queda no rendimento escolar, medo ou recusa em ir à escola, além do surgimento de machucados sem explicação ou danos recorrentes a pertences pessoais.

Durante a entrevista, Falco enfatizou que o papel da família é decisivo na identificação precoce dessas situações. “A família e a escola precisam funcionar como um time. A escola nunca vai conseguir ter olhos para todos o tempo todo, e muitas situações não acontecem na frente dos adultos. Elas podem ocorrer nos corredores, nos intervalos, nas redes sociais ou até fora do espaço físico da escola”, afirmou. Segundo ele, ao perceber mudanças no comportamento dos filhos, é fundamental que os pais comuniquem a escola imediatamente para que o caso seja avaliado de forma cuidadosa.

Falco também alertou para os riscos de expor essas situações inicialmente em grupos de mensagens entre pais. “Infelizmente, é muito comum que esses casos apareçam primeiro em grupos de WhatsApp, o que muitas vezes amplia o conflito e gera ruídos. Em alguns casos, a escola sequer fica sabendo do que está acontecendo”, destacou. Para o psicólogo, quando a comunicação ocorre diretamente com a instituição de ensino, a equipe escolar consegue ouvir todos os envolvidos, proteger a vítima e trabalhar com o aluno que pratica o bullying de forma adequada, evitando julgamentos precipitados e novas violências.

Outro ponto central abordado na entrevista foi o papel dos chamados espectadores — alunos que presenciam as agressões. Falco explicou que, ao contrário do que muitos pensam, quem assiste a uma situação de bullying não ocupa uma posição neutra. “O silêncio de quem presencia também comunica. Quando ninguém se posiciona, o agressor se sente autorizado a continuar, e a vítima se sente ainda mais sozinha e humilhada”, afirmou. Segundo ele, não é necessário que os alunos confrontem diretamente o agressor, mas atitudes simples, como não rir, não compartilhar ofensas e não normalizar a humilhação, já representam uma forma importante de enfrentamento.

Além disso, o especialista defende que os alunos sejam incentivados a acolher quem sofre e a comunicar imediatamente um adulto de confiança, mesmo que não se sintam seguros para agir publicamente. “Avisar um adulto é uma forma de apoio e empatia. A escola precisa reforçar o tempo todo que ser espectador não é ser neutro e que o cuidado com o outro é responsabilidade de todos”, ressaltou. Para Falco, quando essa compreensão se fortalece, a cultura da violência perde espaço e dá lugar a relações mais respeitosas, humanas e seguras.

Em Limeira, o Colégio Jandyra desenvolve ações contínuas de prevenção e enfrentamento ao bullying por meio do Serviço de Orientação Educacional, oferecendo espaços estruturados de escuta e diálogo para os alunos. O tema também é trabalhado de forma transversal nas aulas de Projeto de Vida, presentes em todas as séries, com foco na conscientização, no desenvolvimento de habilidades socioemocionais, no fortalecimento da empatia e no incentivo ao papel ativo dos estudantes na construção de um ambiente escolar mais acolhedor, respeitoso e seguro.


Comentários

Compartilhe esta notícia

Faça login para participar dos comentários

Fazer Login