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Mais de 300 mil idosos brasileiros têm algum grau de TEA, diz estudo

A prevalência de Transtorno do Espectro Autista (TEA) entre brasileiros com 60 anos ou mais é de 0,86%, o que representa cerca de 306 mil pessoas, segundo levantamento do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), com base no Censo Demográfico de 2022. O índice é ligeiramente maior entre homens (0,94%) do que entre mulheres (0,81%). Em nível global, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que aproximadamente 70 milhões de pessoas vivam com algum grau do transtorno.

Para compreender os desafios do diagnóstico tardio, a Gazeta de Limeira traz esta entrevista, hoje, 2 de abril, Dia Mundial do Autismo, com o professor doutor Guilherme de Almeida, presidente da Autistas Brasil. Pesquisador autista, ele atua na promoção da inclusão e dos direitos das pessoas com TEA. 

Segundo o especialista, os sinais do transtorno em idosos são, em essência, os mesmos ao longo da vida, mas muitas vezes passam despercebidos. “São pessoas que sempre tiveram dificuldades na comunicação social recíproca, interesses intensos e necessidade de rotinas, mas desenvolveram estratégias de compensação ao longo das décadas”, explica. Esse processo, conhecido como masking (camuflagem), pode ocultar o diagnóstico por anos.

De acordo com Guilherme, o reconhecimento do TEA costuma ocorrer quando essas estratégias deixam de ser sustentáveis. Situações como aposentadoria, luto ou declínios cognitivos associados ao envelhecimento expõem dificuldades antes ocultas. “Históricos de depressão recorrente, ansiedade crônica e isolamento social prolongado são comuns, mas frequentemente tratados como condições primárias, quando são, na verdade, consequências de um autismo não identificado”, afirma.

O diagnóstico tardio também resulta de fatores históricos e culturais. O autismo foi descrito pela primeira vez em 1943 pelo psiquiatra Leo Kanner e, por décadas, foi associado a quadros infantis graves e raros. Apenas nas últimas décadas a noção de espectro mais amplo se consolidou, especialmente após a atualização dos critérios diagnósticos em 2013.

“Os idosos de hoje cresceram em uma época em que o diagnóstico não existia para o perfil que apresentam”, destaca Guilherme. Ele acrescenta que os instrumentos clínicos foram desenvolvidos, sobretudo, para crianças, e muitos profissionais de saúde ainda não têm formação adequada para identificar o transtorno em adultos e idosos.

O aumento de diagnósticos nessa faixa etária impõe desafios ao sistema de saúde e às políticas públicas. Segundo o pesquisador, há necessidade de capacitação de profissionais, além da adaptação de serviços de saúde mental e assistência social. “Instituições de longa permanência e centros de atendimento não estão preparados para acolher pessoas autistas, que têm necessidades específicas de comunicação, sensorialidade e previsibilidade”, afirma.

Para ele, o diagnóstico tardio também envolve uma dimensão de justiça social. “São pessoas que passaram a vida inteira sem acesso a direitos básicos. O reconhecimento do autismo na velhice não é apenas clínico; é uma forma de reparação”, diz.

Outro ponto crítico destacado pelo especialista é a diferença na manifestação do TEA entre homens e mulheres. Historicamente, os critérios diagnósticos se basearam em perfis masculinos, o que contribui para a subnotificação entre mulheres. “Elas tendem a apresentar maior capacidade de camuflagem social e interesses considerados mais ‘aceitáveis’, o que dificulta a identificação”, explica.

Além disso, fatores culturais reforçaram essa invisibilidade. Muitas mulheres idosas passaram a vida desempenhando papéis sociais rígidos — como mãe e cuidadora — que funcionaram como uma espécie de máscara. “Diversas receberam diagnósticos de outras condições ao longo da vida, sem que o autismo fosse sequer considerado”, conclui.

Diante desse cenário, especialistas defendem que o autismo seja tratado como uma condição ao longo de toda a vida, e não apenas como um transtorno da infância. O avanço no diagnóstico entre idosos revela uma nova demanda de saúde pública e a necessidade de revisão de políticas e práticas para garantir inclusão e dignidade a essa população.


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