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Crianças têm prioridade, mas ainda enfrentam longa espera por órgãos

Mais de 49 mil brasileiros aguardam por um transplante no país. Cerca de 3 mil pessoas morrem todos os anos antes de conseguir um órgão, segundo o Ministério da Saúde. Entre crianças e adolescentes, a espera traz um desafio adicional: além da compatibilidade clínica, o órgão precisa ter tamanho adequado ao corpo do receptor.

A legislação do Sistema Nacional de Transplantes (SNT) estabelece regras específicas para reduzir essa desigualdade. Quando o doador falecido tem menos de 18 anos, os órgãos são destinados primeiro a receptores da mesma faixa etária. Apenas na ausência de uma criança ou adolescente compatível em todo o país o órgão é ofertado a um adulto. Mesmo quando o doador é adulto, crianças e adolescentes recebem pontuação de prioridade na lista de espera. A regra considera as necessidades específicas da infância e a maior expectativa de vida dos pacientes.

No transplante renal, menores de 18 anos também podem entrar na lista antes do início da diálise ou hemodiálise. O chamado transplante preemptivo busca evitar os impactos prolongados da doença renal e preservar o desenvolvimento da criança.

Apesar das regras de prioridade, a oferta de órgãos para o público infantil continua limitada. Em 2025, o Brasil realizou 586 transplantes de órgãos sólidos em crianças e adolescentes. No mesmo ano, 50 crianças morreram enquanto aguardavam na fila, segundo o Registro Brasileiro de Transplantes (RBT). O número de doadores pediátricos também caiu. Foram 274 em 2023 e 211 em 2025, redução de 23% em dois anos.

A compatibilidade representa outro obstáculo. Crianças não podem receber qualquer órgão disponível: o tamanho e o peso precisam ser adequados ao corpo do receptor. Isso reduz o universo de doadores e pode prolongar a espera.

São Paulo se destaca como o principal polo de transplantes pediátricos do Brasil. O estado reúne hospitais especializados e equipes preparadas para procedimentos de alta complexidade, além de receber pacientes de diferentes regiões do país. Entre as instituições de referência estão o Instituto de Tratamento do Câncer Infantil (ITACI), o GRAACC e o complexo do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP). O Hospital Pequeno Príncipe, no Paraná, também é referência nacional e atende pacientes de vários estados. A estrutura especializada amplia as possibilidades para crianças que precisam de um órgão compatível e reduz a dependência exclusiva de doadores pediátricos falecidos.

Com a redução dos doadores pediátricos falecidos, o transplante intervivos ganhou importância. Nessa modalidade, um familiar compatível pode doar parte de um órgão, como ocorre nos transplantes de fígado. São Paulo responde por mais de 75% dos transplantes de fígado intervivos em crianças no Brasil, segundo o levantamento da Gazeta. A técnica permite retirar apenas parte do fígado do doador e transplantá-la na criança, o que pode reduzir o tempo de espera.

A idade não é o único critério para definir quem recebe um órgão. A urgência médica e a compatibilidade anatômica também têm peso decisivo.

Casos de insuficiência hepática aguda fulminante, por exemplo, podem exigir prioridade. No transplante renal, problemas graves relacionados ao acesso vascular para diálise também podem alterar a posição do paciente. Em crianças, a avaliação anatômica ganha ainda mais importância. O órgão precisa ter dimensões compatíveis com o corpo do receptor para que o transplante seja possível.Por isso, a fila não segue apenas a ordem de inscrição. O sistema considera critérios médicos, compatibilidade, urgência e características do doador e do receptor.

Segundo o Ministério da Saúde, um único doador pode beneficiar até oito pessoas. Mas a decisão da família continua entre os principais obstáculos para ampliar a oferta de órgãos. Em cerca de 45% dos casos, a família não autoriza a doação, conforme os dados apresentados no levantamento.

Para uma criança na fila, a recusa pode significar a perda de uma oportunidade rara de compatibilidade. A queda dos doadores pediátricos reforça a necessidade de ampliar a conscientização sobre a importância da doação. Para quem espera, um órgão representa muito mais que o fim de uma fila. Significa a chance de crescer, estudar, brincar e retomar uma vida interrompida pela doença.

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